quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Tocantins, Parte II

A segunda passagem pelo Tocantins foi bem menos interessante do ponto de vista turístico.

Passei por um trecho ruim da movimentada BR-153 entre Presidente Kennedy e Miranorte, onde o acostamento é intrafegável por ser de terra e ter buracos e detritos soltos. É o pior tipo de estrada possível, pois os motoristas veem que existe acostamento e tratam de "jogar" o ciclista para fora da estrada.

Em Palmas a Elvira veio para nosso último encontro antes de eu voltar a Curitiba, mas não aproveitamos tanto como queríamos porque fiquei doente. Cheguei ao meio-dia no hotel já com dor de garganta e indisposto, e de tarde tive diarréia e febre. De certa forma tive sorte, porque no estado em que me encontrava estar sozinho teria sido terrível. Eu mal tinha forças para levantar e tomar água.

No dia seguinte já me sentia bem melhor, e me deliciei com o café da manhã do hotel, que também tinha piscina e servia almoço de bacana. Quatro estrelas o lugar. Muito luxo para mim, mas pelo tanto de pão com margarina (ou bolacha e água) que comi na viagem eu achei que merecesse.

Por sinal, as quatro estrelas me lembraram de uma história que se deu em Açailândia, Maranhão. Entrei em um hotel, a fim de pesquisar preços. A recepção tinha apenas um balcão pequeno de madeira, e nenhum outro móvel. Uma senhora idosa estava sentada em uma cadeira de rodas. Ao lado do balcão começava um corredor escuro e apertado, cujo fundo não se via. Uma mulher de uns 40 anos veio de fora fumando. A senhora idosa implorou por uma tragada e a mulher de 40 deu-lhe o cigarro enquanto me atendia. 40 reais por um quarto com ventilador e banheiro. "Tem café da manhã?", perguntei. E ela: "Olha, nós servimos café da manhã, mas nosso café não é 5 estrelas. É apenas 3 estrelas." Eu: "E o que isso significa? Pão com margarina?" Ela respondeu: "É!"

De Palmas saí pela TO-050, uma estrada bem deserta que chega a ter 100 km sem nenhum povoado no caminho. E aquele padrão tocantinense de asfalto: uma camada fina de pedra-brita que deixa a superfície rugosa e propensa a buracos.

Estatísticas:

Dia 103 (Araguaína): 110,86 km @ 18,38 km/h, 952 m ↑
Dia 104 (Guaraí): 194,01 km @ 21,86 km/h, 1424 m ↑
Dia 105 (Miracema do Tocantins): 107,59 km @ 18,89 km/h, 833 m ↑
Dia 106 (Palmas): 86,82 km @ 19,51 km/h, 674 m ↑
Dia 108 (Porto Nacional): 70,86 km @ 20,13 km/h, 391 m ↑
Dia 109 (Natividade): 166,74 km @ 19,54 km/h, 924 m ↑
Dia 110 (Arraias): 194,27 km @ 18,18 km/h, 1594 m ↑

Total: 10815 km

IMG_6801 - Dez mil quilômetros

IMG_6811 - Chuva se aproximando em Colinas do Tocantins

Chuva se aproximando em Colinas do Tocantins

IMG_6819 - BR-153

BR-153

IMG_6820 - Plantação de abacaxi

Plantação de abacaxi em Rio dos Bois

IMG_6830 - Ferrovia Norte-Sul cruzando com TO-342

Ferrovia Norte-Sul cruzando com TO-342

IMG_6843 - Monte na Serra do Lajeado

Monte na Serra do Lajeado

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Rio Tocantins

IMG_6901 - Piscina do Hotel Girassol Plaza

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Hotel em Palmas

IMG_6989 - Chapada de Natividade

Chapada de Natividade

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IMG_7020 - Subida da TO-050 próximo de Arraias

Subida da TO-050 próximo de Arraias

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Clandestino na Chapada das Mesas

Voltei para o interior do Brasil. Isso significa menos paisagens, mais subidas, mais calor, e distâncias maiores entre cidades. Por outro lado a interação com as pessoas é maior. Sou menos turista e mais viajante. A curiosidade do povo propicia o inusitado, que alivia a monotonia geral das estradas.

De Buriticupu a Açailândia enfrentei o dia mais pesado da viagem de acordo com o altímetro, mas tive boas surpresas. Primeiro um motorista parou para me entregar uma "quentinha". Depois, ao deixar Bom Jesus das Selvas, fui perseguido brevemente por duas garotas de moto que queriam tirar uma foto comigo. Viram-me da porta de casa, acharam diferente e vieram atrás de mim. Após a foto dei risadas tentando imaginar o que elas escreveriam junto da foto que publicariam no Facebook, pois não perguntaram meu nome ou de onde era, e nem sequer para onde eu ia.

Fiz mais paradas em Imperatriz (onde eu ganharia uma segunda quentinha!) e Estreito, e ontem tomei a BR-230, a Rod. Transamazônica, para a Chapada das Mesas. A intenção inicial era apenas apreciar a visão geral que se tem da estrada, mas várias pessoas me recomendaram uma visita ao cânion e cachoeira da Pedra Caída, que ficam na margem da estrada e não me tirariam da rota. Mas chegando no portal de acesso fui informado de que deveria pagar de 45 a 60 reais, conforme os lugares que pretendia visitar. Achei muito caro para tirar foto de um passeio em que não pretendia gastar mais de uma hora e continuei.

Um quilômetro depois encontrei uma porteira aberta do mesmo lado da estrada que o portal da Pedra Caída. Pensei se tratar de uma propriedade vizinha de onde veria algo mais da Chapada do que aparecia da estrada, e, como não havia placas proibindo a entrada, decidi investigar. Mas eis que aquilo era, na verdade, a entrada dos fundos do mesmo parque. Andei 500 metros propriedade adentro e vi duas passarelas, uma das quais dava acesso ao cânion. Desci até o fundo do mesmo para registrar a belíssima paisagem, mas deixei de visitar a cachoeira porque, já lá embaixo, turistas me disseram que seria necessário entrar na água para acessá-la, e eu não carregava nada para proteger a minha pochete contendo carteira e eletrônicos.

À noite pousei em Carolina, o pólo turístico da Chapada, e hoje de manhã entrei novamente no Estado do Tocantins, cruzando de ferry-boat o rio de mesmo nome.

Estatísticas:

Dia 97 (Santa Luzia): 119,24 km @ 23,30 km/h, 691 m ↑
Dia 98 (Buriticupu): 121,94 km @ 18,82 km/h, 1664 m ↑
Dia 99 (Açailândia): 152,80 km @ 17,97 km/h, 2279 m ↑
Dia 100 (Imperatriz): 68,08 km @ 22,20 km/h, 600 m ↑
Dia 101 (Estreito): 130,50 km @ 21,12 km/h, 892 m ↑
Dia 102 (Carolina): 101,08 km @ 18,23 km/h, 1165 m ↑

Total: 9884 km

IMG_6705 - BR-222

Resumo do dia 99 (BR-222)

IMG_6720 - Quentinha de feijoada ganha de um motoboy

Quentinha de feijoada ganha de um motoboy em Imperatriz

IMG_6726 - Eu e Laertes

Eu com Laertes, tio da Mayara (de São Luís). Grande companhia por uma noite em Imperatriz: fomos num churrasco e passeamos para conhecer a cidade

IMG_6739 - BR-230

Rod. Transamazônica no Maranhão

IMG_6747 - Pedra Caída

Portal da Pedra Caída

IMG_6753 - Vista da passarela em Pedra Caída

Vista da passarela que dá acesso ao teleférico da Pedra Caída

IMG_6754 - Ponte sobre o cânion em Pedra Caída

Ponte sobre o cânion

IMG_6759 - Cânion em Pedra Caída

IMG_6761 - Cânion em Pedra Caída

IMG_6765 - Cânion em Pedra Caída

Cânion da Pedra Caída

IMG_6769 - BR-230 na Chapada das Mesas

Chapada das Mesas vista da Rod. Transamazônica

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Lençois e a insegurança no Maranhão

Acordei em Tutoia disposto a percorrer os supostos 230 km até Morros em apenas um dia. No meio do caminho estava Barreirinhas, de onde saem os passeios pelos Lençois Maranhenses, mas eu não estava a fim de mais um programa de turista, e passaria reto. Mas logo que saí, às 5h15, descobri, perguntando as direções, que não há estrada entre Paulino Neves e Barreirinhas. São 30 km de areia, que só se atravessam com uma condução 4 por 4, numa viagem de 2 horas.

Lamentei pela minha própria estupidez, pois não lembrava desse detalhe dos relatos que lera. Mas em Paulino Neves, a 30 km de Tutoia, tive a sorte de encontrar o Etevaldo, que logo sairia com sua Toyata Bandeirante para mais uma viagem. Deu várias voltas na cidade para encher o veículo adaptado com 14 passageiros e partiu às 9h.

O que se seguiu não estava no roteiro e me deixou encantado. Etevaldo fez parte do trajeto cruzando os chamados "Pequenos Lençois". Passou perto de lagoas, por cima de dunas, no centro de uma paisagem sem igual. O vento forte lançava a areia contra os passageiros, e alguns se protegiam com uma toalha sobre a cabeça. O veículo ia por trilhas incertas, muitas vezes invisíveis. Encontramos uns povoados naquele deserto, onde desceram alguns passageiros e de onde subiram outros.

Chegamos em Barreirinhas as 11h. Fiquei mais do que satisfeito, almocei e continuei. Devido ao imprevisto fiquei atrasado em relação ao plano, mas um excelente acostamento me permitiu pedalar em segurança à noite até Morros.

Para chegar em São Luís fui obrigado a tomar a BR-135, uma estrada com acostamento horrível e movimento muito intenso, com vento contra. Certa hora o passageiro de uma Kombi atirou um objeto nas minhas costas e passou dando risada. Estava perdendo a paciência, mas então achei uma trilha para uma estrada de chão paralela, que parece ser usada para manutenção das linhas de alta tensão.

Depois de certo esforço cheguei no apartamento do Ronaldo e da Mayara, couchsurfers que me hospedaram por 2 noites. O casal foi uma ótima companhia. Fizeram uma paeja deliciosa e me levaram para conhecer a cidade.

A fim de evitar uma segunda passagem pela BR-135 peguei um barco para Alcântara para deixar a capital, e fui até Vitória do Mearim. Esse trecho é conhecido como "Baixada" no Maranhão, e fui alertado diversas vezes sobre o risco de assaltos. Isso deixou uma marca triste da minha passagem pelo Maranhão. Foi o único estado onde as pessoas me avisavam consistentemente sobre esse perigo. Não só na Baixada, mas também em Morros e Tutoia, vê-se uma grande quantidade de motos circulando nas ruas, e eu ficava alerta sempre que percebia dois homens na mesma moto.

Estatísticas:

Dia 92 (Morros): 196,30 km @ 23,57 km/h, 676 m ↑
Dia 93 (São Luís): 104,83 km @ 17,79 km/h, 718 m ↑
Dia 95 (São Bento): 129,75 km @ 20,63 km/h, 1151 m ↑
Dia 96 (Vitória do Mearim): 129,73 km @ 20,88 km/h, 627 m ↑

Total: 9190 km

IMG_6470 - Ponte sobre o Rio da Fome em Paulino Neves

Ponte sobre o Rio da Fome em Paulino Neves

IMG_6473 - Bike carregada na condução para Barreirinhas

Condução para Barreirinhas

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Pequenos Lençois

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IMG_6534 - Condução sendo desatolada nos Pequenos Lençois

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Barreirinhas

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BR-135 em Bacabeira

IMG_6563 - Acesso paralelo à BR-135

Acesso paralelo à BR-135

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Acostamento esburacado em São Luís

IMG_6576 - Centro Histórico de São Luís

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Centro Histórico de São Luís

IMG_6583 - Eu, Mayara e Ronaldo

Eu, Mayara e Ronaldo

IMG_6592 - Barco para Alcântara

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Barco para Alcântara

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Alcântara

IMG_6621 - Pierre e eu

Pierre, cicloviajante canadense. Está indo do Oiapoque ao Chuí, e leva um drone para fazer tomadas aéreas. Pretende lançar um documentário.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Visita surpresa no Ceará

Não sei se foi a expectativa de visitar mais lugares turísticos ou fotografar as já monótonas praias, mas entrei no Ceará com um certo desânimo. Não conseguia apreciar a beleza dos lugares. Em Morro Branco, após o almoço, sentei-me de frente para o mar e fiquei filosofando sobre o sentido de tudo isso.

Passar só para tirar fotos é uma experiência muito pequena. Em vez disso é o inusitado, o encontro inesperado com algumas pessoas, as dificuldades, que enriquecem a viagem. Às vezes a conversa com um caminhoneiro no posto de gasolina de uma BR movimentada deixa uma lembrança mais marcante que a visita a uma praia paradisíaca. As paisagens são apenas o tempero das experiências.

Minha reflexão foi interrompida pela chegada de um sujeito curioso sobre a viagem. Dei um suspiro antes de começar, pela milésima vez, a versão resumida da história, mas logo ele se revelou uma excelente companhia. Era piloto de bugue, paulista que se mudara havia 3 meses, e levava turistas para passeios pelas falésias. Ofereceu-me pouso em sua casa com piscina que ficava bem perto da praia, e aceitei apesar de não ser ali a parada planejada do dia. Fomos a um bar, tomamos algumas cervejas e demos muitas risadas. O cara era engraçado demais.

Na manhã seguinte saí cedo com a intenção de encontrar minha namorada no aeroporto de Fortaleza antes do meio-dia. Apertei o passo e cheguei com uma hora e meia de antecedência no local de pessoas alinhadas, vestido com meu uniforme cujo cheiro eu não sinto mais porque passou a fazer parte da vida.

Minha namorada apareceu no portão de desembarque, dei-lhe um abraço fedido, e eis que, segundos depois, para minha surpresa, apareceram do mesmo portão os meus pais. Fiquei emocionado. Sentia uma saudade que nunca havia provado antes. Passamos alguns dias em Fortaleza e nas praias famosas: Canoa Quebrada, Morro Branco e Jericoacoara. Foi uma das melhores partes da viagem, apesar de não achar nada muito interessante nos lugares em si.

Jericoacoara é apenas uma Ilha do Mel com glamour, mas tem suas peculiaridades. Os dois metros de variação da sua maré fazem o mar recuar uns 200 metros, e quando voltei à orla seis horas mais tarde mal pude acreditar que se tratava da mesma praia. Além disso as estradas que ligam a vila ao pavimento são todas de areia fofa, e atravessá-las com um carro comum é arriscado sem contratar um dos guias que assediam violentamente os turistas. Pagamos 30 reais em cada sentido (usamos caminhos diferentes) e mesmo assim precisamos desatolar o carro uma vez.

Após me despedir de todos segui meu caminho a partir de Fortaleza. Os quatro dias seguintes foram de pedal forte e muito calor, até a chegada em Tutoia, no Maranhão.

Estatísticas:

Dia 81 (Aracati): 95,72 km @ 20,49 km/h, 360 m ↑
Dia 82 (Morro Branco): 88,19 km @ 19,56 km/h, 415 m ↑
Dia 83 (Fortaleza): 98,76 km @ 23,37 km/h, 516 m ↑
Dia 88 (Trairi): 132,87 km @ 24,35 km/h, 719 m ↑
Dia 89 (Jijoca de Jericoacoara): 188,87 km @ 22,67 km/h, 817 m ↑
Dia 90 (Chaval): 135,78 km @ 21,59 km/h, 568 m ↑
Dia 91 (Tutoia): 205,56 km @ 21,90 km/h, 1247 m ↑

Total: 8629 km

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Icapuí

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Canoa Quebrada

IMG_6083 - Morro Branco

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IMG_6101 - Jangada chegando em Morro Branco

Morro Branco

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Namorada cheirosa com namorado fedido

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Falésias em Morro Branco

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Dunas em Morro Branco

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Eu e meus pais

IMG_6215 - Jericoacoara

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Praia em Jericoacoara

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Pôr-do-sol em Jericoacoara

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Pedra Furada

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Maré baixa em Jericoacoara

IMG_6345 - Estrada para Mundaú

Estrada para Mundaú

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Estrada para Canaã

IMG_6415 - Chaval

Chaval

IMG_6439 - Árvore penteada na PI-116

Árvore penteada na PI-116

IMG_6442 - Dunas na PI-116

"Rapaz, te dou um prato de comida para você tirar esse montinho de areia da estrada."

IMG_6449 - Praia de Atalaia em Luís Correia

Praia de Atalaia em Luís Correia

IMG_6460 - Rio Parnaíba

Rio Parnaíba

IMG_6462 - Ondulações no Maranhão (MA-345)

Estrada no Maranhão (MA-345)