sábado, 11 de outubro de 2014

Salvador, finalmente o mar!

Cheguei em Itaberaba, aos pés da Chapada Diamantina, na hora do almoço. Queria chegar em Salvador dois dias depois, mas ainda não sabia o melhor caminho. O mais natural seria ir via Paraguaçu e tomar a BR-116, a "Rio-Bahia", até Feira de Santana, e de lá seguir para Salvador. O caminho que eu cogitava consistia em continuar pela BR-242 até Castro Alves e fazer a travessia de balsa entre Itaparica e Salvador: 40 km mais curto. Mas algumas pessoas recomendaram que eu fosse via Ipirá, um caminho 10 km mais longo que pela BR-116, por ter menos caminhões.

No posto de gasolina consultei um caminhoneiro experiente. Explicou que via Castro Alves haveria muito asfalto ruim e estrada de chão. O melhor seria ir pela BR-116. Pegaria uma estrada pedagiada e recentemente duplicada.

Decidi fazer assim, mas precisava pedalar mais um pouco para não ter que fazer 170 km no dia seguinte. Fui até a vila São Vicente, onde havia um posto 24 h e nenhum hotel. O posto era movimentado e grudado na vila, porém não tive alternativa. Procurei casas mas ninguém queria ceder o jardim. Diziam que eu poderia acampar na rua sem nenhum perigo, mas os muros e grades altas e os pesados cadeados em todos os portões sugeriam o contrário.

Pelo segundo dia consecutivo tive uma experiência incomum com moradores. Geralmente eu consigo um espaço no jardim na primeira ou segunda tentativa, mas agora a taxa de sucesso era zero. Não entendi o que se passava. Eram todas pessoas pobres e mais velhas, em lugares em que turistas nunca param. Tive a impressão que a idade pesava mais, mas não encontrava moradores jovens nos momentos em que procurava para fazer o teste.

Na lanchonete do posto, onde fiquei matando tempo, um caminhoneiro chamado Damião puxou conversa. Ele e seu colega cruzaram comigo duas ou três vezes na estrada desde que eu entrara na BR-242 em Barreiras. Era algo comum sempre que eu ficava alguns dias pedalando na mesma estrada. Em Imbotirama, do outro lado da Chapada, um motorista contara o mesmo, e insistira em pagar meu almoço. Já não estranhava as dezenas de buzinadas "amigas" que eu recebia dos motoristas todos os dias.

Damião morava em Arembepe, no litoral norte da Bahia, e me pediu para entrar em contato quando passasse por lá. Ele teria uma folga de 36 horas. (No entanto eu chegaria apenas 2 horas após ele partir para uma nova viagem e não pudemos nos encontrar).

Dormi num canto atrás do posto, mais uma vez sem barraca, mas dessa vez não tive um bom sono. A brisa refrescante parou de madrugada e os mosquitos começaram a atacar. Levantei ainda de noite e comecei o pedal com os primeiros raios de luz. Logo passaram por mim Damião e seu colega dirigindo dois caminhões de combustível da Shell. Colocaram-se totalmente na pista contrária para me ultrapassar e fizeram um buzinaço.

Após Paraguaçu encontrei o trecho duplicado da Rio-Bahia. Pela primeira vez desde que saíra do Paraná atravessei um pedágio. Em sua maior parte passei por um acostamento largo e com a superfície perfeita. Perto de Santo Estêvão, num trecho ainda em obras, ouvi uma buzinada insistente: era o motorista do posto de Itaberaba, que me explicara o caminho no dia anterior.

Dormi em Feira de Santana conforme planejara. Na manhã seguinte chovia. Esperei ela parar e parti às 9 horas, mas não adiantou. Na BR-324, outra estrada pedagiada, enfrentei várias pancadas fortes, talvez mais de dez, e não tive onde me esconder. Numa lanchonete um motorista me abordou e falou que tinha pensado em parar o carro de tão forte que estava a chuva. Meu humor não se abalou, no entanto. Era apenas a segunda vez em dois meses que uma chuva me molhava de verdade.

Passei por Simões Filho e a estrada ficou mais movimentada. Entradas e saídas para todo lado. Três pistas em cada sentido. Acostamento irregular e cheio de lama. Favelas.Chegava novamente na cidade onde terminara em janeiro de 2009 uma das melhores viagens da minha vida, realizada junto com o Bruno e o Aramis: 3000 km ao longo da costa entre Curitiba e Salvador.

Ventava demais no fim daquela tarde, o que me desencorajou a tomar um banho simbólico, mas foi emocionante. Dois meses e 6 mil quilômetros depois via o mar pela primeira vez na viagem.

Estatísticas:

Dia 62 (Vila São Vicente - Itaberaba): 132,00 km @ 17,11 km/h, 1247 m ↑
Dia 63 (Feira de Santana): 123,46 km @ 17,09 km/h, 1045 m ↑
Dia 64 (Salvador): 121,73 km @ 18,08 km/h, 799 m ↑

Total: 5927 km

IMG_4894 - BR-242

IMG_4902 - Cascavel na BR-242

Cascavel na BR-242

IMG_4903 - Vista da BR-242

Vista da BR-242

IMG_4908 - Pedágio na BR-116

IMG_4912 - BR-116

IMG_4920 - Igreja da Matriz em Feira de Santana

Igreja da Matriz em Feira de Santana

IMG_4922 - BR-324

BR-324 com chuva

IMG_4928 - Trânsito em Salvador

Trânsito no final da tarde em Salvador

IMG_4931 - Chegada em Salvador (Costa Azul)

Chegada em Salvador (Costa Azul)

IMG_4936 - Salvador

IMG_4937 - Salvador