quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Chapada Diamantina

Após Oliveira do Brejinhos identifiquei o perfil da Chapada Diamantina. 400 m acima turbinas eólicas anunciavam o desafio do dia: vento contra.

A subida da serra, de 7 km, não pareceu difícil, talvez porque eu já a esperasse, mas o que se seguiu virou uma tortura. Um após outro, vales profundos eram cortados pela estrada, com desníveis de mais de 100 m. A temperatura amena, que eu não sentia havia mais de um mês, pareceu não ajudar.

O alívio só veio no final do dia, antes de Seabra, com uma longa descida e um relevo ligeiramente mais suave. Assim mesmo a média do dia foi de apenas 14 km/h, a menor em asfalto desde o início da viagem.

Acordei com o tempo escuro. A chuva era iminente, pensei, mas durante o café da manhã outro hóspede explicou, e eu confirmaria nos dias seguintes: na Chapada as nuvens pesadas passam, mas dificilmente chove. E isso fica evidenciado pela vegetação de caatinga.

Depois de Seabra passei pela parte turística e mais conhecida da Chapada. Uma curva para a esquerda na BR-242 e vi o Morro do Pai Inácio, do outro lado de um grande vale. Em seguida os Três Irmãos. Foi um dia com predominância de descidas, que terminou em Lençois. Ali me encontrei novamente com a Elvira.

Lençois é uma cidade realmente bonita, de ruelas e construções antigas espremidas entre morros, onde não se faz muito mais coisas do que frequentar restaurantes. O forte são os passeios distantes pela Chapada. Para alguns deles é necessário um guia. Eu e a Elvira escolhemos um dos mais populares, pois não conhecíamos nada.

Primeiro fomos ao Rio Mucugezinho e ao Poço do Diabo. Depois foi a vez da Caverna da Fumaça. Almoçamos uma comida típica que inclui a palma (muito usada para alimentar gado) e então fomos à Gruta Azul e à Gruta da Pratinha. São dois lugares onde as rochas do fundo deixam a água incrivelmente azul. Na última delas fizemos, inclusive, flutuação. Terminamos o dia assistindo ao pôr-do-sol do alto do Morro do Pai Inácio.

A Chapada Diamantina faz jus a sua fama. É fantástica e tem muita coisa para conhecer. Meu irmão passara um mês viajando apenas por lá. Achava um exagero, mas agora vejo que não.

Saí de Lençois no dia 30 de setembro, após o meio-dia, sem saber onde ia parar. No caminho perguntei das possibilidades mas elas não estavam próximas umas das outras. Num assentamento um bêbado que morava com a mulher e três enteados me ofereceu água, suco de maracujá silvestre, iogurte e almoço. Enchi a barriga completamente (as 16 h) e ele me ofereceu um lugar para dormir, mas eu não queria arriscar a ter que conversar com o bêbado até o fim da noite.

Adiante encontrei uma minúscula vila. Conversei com alguns moradores mas eles concordavam que o único lugar onde eu poderia acampar era debaixo de um cajueiro. Pedi por um banheiro com chuveiro, mas me disseram que por ali não se usava: banho era de caneca, cagar era no mato.

Tentei a próxima parada, um posto fiscal desativado havia 20 anos. Um vigia morava numa das salas e me autorizou a acampar do lado de fora. Também não havia banheiros, mas parecia mais tranquilo que naquela vila. Pedi água e o vigia a trouxe num balde para que eu pudesse me servir: "Água aqui é só do caminhão-pipa", explicou.

Fiquei com preguiça de armar a barraca e decidi tentar um "bivaque" (dormir ao relento). Estendi meu colchãozinho no piso liso que havia no lado de trás e tive um bom sono sob uma brisa suave que soprou a noite toda.

Parti logo que o sol nasceu e parei no Posto JK para tomar um café. Enquanto comia um pão com ovo vi alguns cicloturistas chegarem. Cinco deles. Mantiveram-se do lado de fora comendo frutas e fazendo reparos. Saí para cumprimentá-los e notei que eram legítimos "mulambikers". Tudo amarrado com sacos de lixo ou amontoado dentro de caixas de verdura. (Alforjes para quê?) Um deles pedalava uma Monark Barra Circular. Eram todos argentinos, viajavam de forma independente, mas encontraram-se em Feira de Santana.

A passagem pela Chapada terminou com longas descidas até Itaberaba.

Estatísticas:

Dia 56 (Seabra): 125,38 km @ 14,15 km/h, 1626 m ↑
Dia 57 (Lençois): 71,78 km @ 16,35 km/h, 805 m ↑
Dia 61 (Posto Coqueiro - Andaraí): 49,83 km @ 16,54 km/h, 670 m ↑

Total: 5550 km

IMG_4608 - Vale do Rio São Francisco visto da BR-242

Vale do Rio São Francisco visto da BR-242

IMG_4611 - BR-242 na Chapada Diamantina

IMG_4650 - Morro do Pai Inácio

IMG_4655 - BR-242 na Chapada Diamantina

IMG_4666 - Bike e o Morro do Pai Inácio

Morro do Pai Inácio

IMG_4690 - Lençois

Lençois

IMG_4722 - Poço do Diabo na Chapada Diamantina

IMG_4732 - Poço do Diabo na Chapada Diamantina

Poço do Diabo

IMG_4747 - Os Três Irmãos na Chapada Diamantina

Os Três Irmãos

IMG_4751 - Elvira na caatinga (Chapada Diamantina)

Caatinga

IMG_4773 - Casa da Farinha na Chapada Diamantina

IMG_4777 - Casa da Farinha na Chapada Diamantina

Restaurante "A Casa da Farinha"

IMG_4791 - Gruta Azul na Chapada Diamantina

Gruta Azul

IMG_4796 - Fazenda Pratinha na Chapada Diamantina

IMG_4804 - Gruta da Pratinha na Chapada Diamantina

Gruta da Pratinha

IMG_4813 - Chapada Diamantina vista do Morro do Pai Inácio

IMG_4843 - Chapada Diamantina vista do Morro do Pai Inácio

IMG_4853 - Pôr-do-sol visto do Morro do Pai Inácio

Pôr-do-sol visto do Morro do Pai Inácio

IMG_4881 - Acampamento em posto fiscal desativado em Coqueiros (Andaraí)

Acampamento em posto fiscal desativado em Coqueiros (Andaraí)

IMG_4888 - Cinco legítimos

Cinco legítimos "mulambikers" argentinos no Posto JK