domingo, 21 de setembro de 2014

Travessia do Jalapão (fracassada)

O Jalapão é mais deserto que o Alto Araguaia. O ponto que concentra os atrativos turísticos é a cidade de Mateiros, e para chegar lá a partir do Tocantins há duas estradas de chão, que, a exemplo do que aconteceu com a BR-080 e a Ilha do Bananal, vinham me dizendo terem areia demais e ser arriscado atravessar sozinho de bicicleta.

Optei pelo caminho mais curto, de 160 km, a partir de Ponte Alta, pela TO-255. Logo que cheguei fiquei sabendo de um senhor de 51 anos que passara ali havia uma semana e seguira para o Jalapão. Se ele pode eu também posso, pensei. Mas a grande maioria das pessoas, todas elas não ciclistas, me desestimulava fortemente. "Quer um conselho de amigo? Não vá!" Haveria trechos em que teria de empurrar por 2 km, outros com cascalho solto que cortaria o pneu. Somente veículos 4x4 passariam pela estrada.

Os donos da pousada onde fiquei, no entanto, organizam expedições e cruzam a estrada com frequência, e disseram que devagar seria possível. Explicaram os problemas da estrada. Eu encontraria pontos com água nos primeiros 40 km. Depois passaria pelo Rio Vermelho no km 60 e então seriam 60 km de estrada sem nada até o Rio Frito Gordo. Nenhuma bica ou córrego. Tem saída para uma fazenda no meio do caminho, mas o primeiro ponto de apoio fica a 22 km da estrada principal.

Parti às 7h30, mais tarde do que deveria, e encontrei uma estrada difícil desde o começo. Não pela areia, mas pelas costelas de vaca e subidas íngremes que mantinham minha média em 13 km/h. Cruzei com umas 2 ou 3 motos, possivelmente de moradores da região, até as 10 da manhã, e então veio o primeiro veículo, 4x4, cujos passageiros me cumprimentaram e ofereceram água. Junto com ele passaram mais 3 e a estrada ficou novamente deserta. Parei no km 30, penúltimo ponto de apoio. Uma senhora abriu a porta e me ofereceu um prato cheio de bananas. Contou do senhor de 51 anos. Ele pousara ali e esperara um dia e meio por uma carona. Era difícil conseguir porque as caminhonetes passavam sempre lotadas de gente e bagagem. Recomendou que eu não seguisse. Teria que empurrar mais do que pedalar.

Mas logo adiante eu encontraria os areiais de que me falavam, disse ela. Precisava especular e voltei à estrada. Não demorou para eu ter que descer e arrastar a bike com frequência. Continuei até o km 40, o último ponto de apoio. Não havia ninguém na casa. Era a sede de uma fazenda, com galpões, caixas d'água, tratores, cachorros latindo e galinhas ciscando. Uma pickup com placas de Não-Me-Toque, RS.

Enquanto comia chegou uma segunda pickup. O motorista Albino apresentou-se com seu forte sotaque gaúcho. Na caçamba mais dois homens, um deles também gaúcho e o terceiro um peão que já morava ali. Os gaúchos vinham de Coqueiros do Sul, e arrendaram aquele lote havia um mês. Convidaram-me para almoçar e pousar ali mesmo. Fiquei com a primeira metade do convite e quis usar a tarde para avaliar o meu progresso na estrada.

Os areiais aumentaram. Cada vez que chegava numa crista da estrada ondulada eu via, no quilômetro seguinte, 4 ou 5 pontos com areia. Fiz 10 quilômetros em 1h30, contando uns descansos para tomar água. Ou seja, levaria, naquelas condições, 9 h para pedalar e empurrar os 60 km entre o Rio Vermelho e o Frito Gordo. Pouca margem, de erro, concluí. Decidi percorrer mais alguns quilômetros até o Rio Vermelho para daí voltar à fazenda dos gaúchos. No dia seguinte voltaria a Ponte Alta e faria um caminho mais longo até a Bahia, passando por Natividade. Não estava disposto a esperar por uma carona.

Uma caminhonete 4x4 do Governo de Tocantins parou ao meu lado. A porta do passageiro abriu e uma mulher desceu perguntando se eu estava disposto a dar uma entrevista. Ofereceu uma carona até Mateiros. Olhei a caçamba vazia da caminhonete. As vozes lutaram por um instante na cabeça. Seria radicalismo recusar? Ou era uma oportunidade de ouro caindo na mão?

Eu poderia me arrepender se qualquer coisa desse errado na volta. Tive que aceitar. Após a entrevista, que iria ao ar em outubro em rede nacional na TV Brasil, disse que, sim, queria a carona. Coloquei a bike de pé e murchei um pouco os pneus. As duas primeiras tentativas de amarrá-la não surtiram efeito, pois o veículo sacudia demais. Na terceira, após estudar as forças que agiam sobre a bike, consegui prendê-la corretamente com 4 extensores.

A perspectiva de quem está de carro é diferente, especialmente quando o motorista Marcos, do Instituto Ambiental de Tocantins, dirigia a 80 km/h como se a estrada fosse asfaltada. Mas pude ver tanta areia quanto tinham me contado em Ponte Alta. Nos areiais mais críticos a caminhonete reduzia para 20 km/h. Alguns tinham mais de 500 m de extensão. Correria risco de vida se tentasse. Fizera a escolha certa.

Estatísticas:

Dia 49 (Mateiros*): 57,06 km @ 10,79 km/h, 798 m ↑

Total: 4627 km

IMG_4359 - Ponte Alta do Tocantins

Ponte Alta do Tocantins

IMG_4368 - Cachoeira da Sussuapara

Cachoeira da Sussuapara

IMG_4382 - Lanche na TO-255

Lanche do km 30

IMG_4392 - Areia na TO-255

IMG_4394 - Carregando a bike na TO-255

Impossível pedalar nos areiais sem uma bike apropriada

IMG_4395 - TO-255

IMG_4404 - Equipe de reportagem da TV Brasil no Jalapão

Eu com a equipe de reportagem da TV Brasil

IMG_4407 - Carona na TO-255

IMG_4411 - Rio Novo no Jalapão

Rio Novo, um dos últimos rios de água potável do mundo

IMG_4421 - Serra do Espírito Santo no Jalapão

Serra do Espírito Santo

IMG_4422 - Dunas do Jalapão

Dunas do Jalapão