quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Travessia da Reserva do Xingu (BR-080)

Quando planejei atravessar a Reserva do Xingu eu quase não tinha informações sobre a BR-080 (ou a denominação mais recente, MT-322). Na internet havia notícias dizendo que ela ficou intransitável em determinado período devido às chuvas ou, ainda, que faltariam apenas 80 km de asfalto entre Matupá e Confresa. Sabendo ser essa a época da seca procurei não me preocupar, mas conversas na estrada e expressões de espanto diante da minha ideia me faziam repensar sobre o assunto. "Se chover você não atravessa", "não tem nada no caminho", entre outros.

A estrada foi se mistificando, pois ninguém dizia nada preciso. Até que em Peixoto de Azevedo, 5 km antes do trevo para a BR-080, parei para perguntar a um taxista onde encontraria água gelada a frente, para abastecer conforme a necessidade. Seu nome era Elias e quis saber o meu plano, enquanto relaxava sob a sombra de uma árvore em sua cadeira de balanço. Ele conhecia a estrada de uma ponta a outra. Tirei o tablet da pochete para anotar tudo o que pudesse. Ao final filosofou sobre o significado de uma viagem solitária como a que eu fazia, comparando-a com aquela que ele fizera de carro até o Maranhão. Eu deveria anotar tudo, registrar com vídeos e fotos para a posteridade.

Cheguei no trevo que também era a entrada de Matupá, enchi as garrafas no Posto Trevão, e entrei então na estrada que ocupava minha cabeça havia dias. Um asfalto recente, de acostamento estreito mas em perfeito estado e pouquíssimo tráfego. Após os quilômetros iniciais aparece um gramado de 15 m de largura para cada lado separando a estrada de um pedaço de vegetação, em que as árvores alcançam 30 m de altura. Na verdade aquilo é apenas uma faixa que esconde as fazendas, mas é bonito assim mesmo.

O asfalto termina depois de 50 km, e começa uma estrada de terra bem compactada. Aparece então o primeiro vilarejo desde Matupá, o "A1 da União". Um pouco adiante chega-se em União do Norte, onde decidi parar.

A vila tinha mais estrutura do que eu imaginava. Um posto BR, supermercado, restaurante, 3 hotéis diferentes. Fiquei no Hotel Rio Claro. A dona, Vera, chegara ali havia poucos anos. Explicou-me que aquele era o maior assentamento da América Latina. Às 5h20 da manhã seguinte já estava trazendo o pão quente da padaria.

Comecei o dia pedalando por uma estrada um pouco pior, mas no geral confortável. No km 20 um senhor me chamou aos berros da frente de um bar para um lanche quando me viu passar. Alertou-me para as onças da Reserva e disse como proceder caso visse uma.

No km 50 passei reto pela Comunidade Jarinã e parei para lanchar num trecho deserto adiante. Encontrei uns poucos restaurantes espalhados ao longo da estrada e terminei o dia no último deles, o Restaurante JD, aos 120 km.

Na frente duas senhoras conversavam. Havia dormitórios e redes do lado de fora mas perguntei-lhes sobre a possibilidade de acampar. Elas não sabiam informar porque não trabalhavam ali, mas avisaram que dias antes uma onça matara um porco e talvez não fosse uma boa ideia.

Chamaram a Dona Judite. Esta explicou que eu poderia acampar e usar os banheiros de graça, e que a onça não me pegaria. A janta, se eu quisesse, custaria 15 reais. Ela era de Ponta Grossa e as duas senhoras, Jane e Iara, eram suas irmãs lhe fazendo uma visita.

Armei a barraca e tomei banho. Ao voltar sentei em uma das mesas. Havia várias delas, todas arrumadas, como se convidados fossem certos. Uma cerca baixa de madeira separava o bar da estrada. No balcão, ao fundo, uma TV de 50 polegadas transmitindo a Globo. À esquerda uma prateleira com doces e à direita garrafas de uísque barato.

Dali a pouco carros e caminhões foram chegando e logo 15 pessoas enchiam as mesas do pequeno restaurante. Dona Judite convidou todos para irem a sua cozinha se servir. Lá dentro um fogão a lenha com panelões: arroz, feijão branco, feijão preto, batatas cozidas, macarrão, linguiça de porco, pernil de porco, e frango assado. Servi-me 3 vezes daquela comida deliciosa.

Os que ali paravam estavam apenas de passagem. A travessia do Rio Xingu depende de uma balsa que opera somente até as 17h. As condições da BR-080 torna em alguns casos inviável, mesmo para quem está de carro, atravessá-la em menos de um dia. O Restaurante JD situa-se a 2 km da Reserva do Xingu, que tem 40 km de extensão para cada lado da margem do rio, e onde ninguém pode parar.

Fui dormir. As 22h o gerador a diesel seria desligado.

Às 4h15 ouvi um caminhão dar a partida. Era grande, e puxava dois semirreboques. Levantei um pouco depois para desarmar a barraca e tomar um café que Seu Dulcino, esposo de Dona Judite, preparara. Trouxe-me pão caseiro com margarina. Ele era de Matupá, e estabelecera-se ali havia 15 anos, por falta de opções. Não sabia o que aconteceria caso o asfaltamento da BR-080, prometido há anos, fosse finalmente realizado.

Saí às 5h50, pouco depois do nascer do sol, para percorrer os 80 km da Reserva. Falaram-me de areiões, e eu precisava aproveitar cada hora do dia. Fazia apenas 14 graus.

A mata se fechou com árvores não muito altas ao entrar na reserva. A paisagem não mudou. Macacos e diferentes aves eram visíveis da estrada. Encontrei pegadas de onça recentes, deixadas sobre o trilho que os veículos desenhavam.

Pedalei com uma média boa, esperando pelos areiões, mas eles não vieram. Tem areia, mas somente em alguns pontos. Também tive a sorte de ter caído uma forte chuva poucos dias antes que deve ter compactado a superfície. A estrada, no entanto, é muito irregular e complicada para qualquer veículo com duas rodas por eixo.

Cheguei no Rio Xingu e encontrei o caminhão das 4h15 ainda esperando pela balsa. Conversamos sobre os índios, que a operam. Muitos já tinham me alertado para isso. São "embaçados", cobram caríssimo, não pode tirar foto senão eles levam a máquina etc.

A balsa atracou. Subimos o caminhão, um carro, uma moto e eu. O caminhão ficou no meio. O carro, a moto, e um índio entre o caminhão e o rebocador, e eu com a bicicleta entre o caminhão e o corrimão da balsa do lado oposto. A balsa ficou encalhada e foi preciso usar o impulso do caminhão que arrancava, freava e dava marcha-a-ré em ciclos.

Fiquei olhando por debaixo da carroceria do caminhão para me certificar de que o índio estava do lado oposto enquanto eu tirava fotos. Ao final da travessia ele deu a volta e se aproximou. Chinelo de dedo, bermuda e camiseta azul. Rabo de cavalo, dentes incisivos careados formando um "V". "Quanto pagar?", perguntou, olhando para a bicicleta. Ele queria saber o preço dela para me cobrar o pedágio. Obviamente que esses índios não se preocupam com custo operacional ou impacto deixado pelo veículo em sua terra. Eles querem apenas saber o quanto você é capaz de pagar. Carros de luxo pagam mais caro que carros comuns, por exemplo. Desconversei, e ele me disse: "É 30". Paguei sem argumentar, lembrando ser esse o preço para uma moto. Queria sair rápido e evitar a aproximação de algum dos índios que se reuniam perto do ponto onde a balsa atracou.

Logo no começo da estrada do outro lado, vi a aldeia deles. Apareceram bem mais areiões dali em diante, mas ainda assim nada muito duro para a bicicleta.

A travessia foi mais fácil do que imaginei pelas conversas com as pessoas ainda do outro lado do Xingu. A BR-080 foi desmistificada. Cheguei às 12h30 em São José do Xingu, exausto, e gastei a tarde dormindo.

Estatísticas:

Dia 38 (União do Norte): 117,87 km @ 17,53 km/h, 977 m ↑
Dia 39 (Restaurante JD): 121,55 km @ 14,71 km/h, 832 m ↑
Dia 40 (São José do Xingu): 91,87 km @ 15,39 km/h, 548 m ↑

Total: 3685 km

IMG_3839 - Saída para MT-322

IMG_3857 - MT-322

BR-080 (MT-322)

IMG_3868 - MT-322

IMG_3872 - MT-322

IMG_3897 - União do Norte

União do Norte

IMG_3918 - MT-322

IMG_3942 - MT-322

IMG_3951 - MT-322

IMG_3964 - Ponte na MT-322 (km 149)

IMG_3988 - Cozinha da Dona Judite

Cozinha da Dona Judite

IMG_3991 - Restaurante JD

Restaurante JD

IMG_3993 - Início da Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

Início da Reserva do Xingu

IMG_3997 - Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

IMG_4002 - Sujeira da MT-322

IMG_4015 - Pegadas de onça na Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

Pegadas de onça

IMG_4023 - Balsa sobre o Rio Xingu - MT-322

IMG_4024 - Balsa sobre o Rio Xingu - MT-322

Balsa sobre o Rio Xingu

IMG_4031 - Aldeia na Reserva do Xingu - MT-322 (Leste)

Aldeia na Reserva do Xingu

IMG_4047 - São José do Xingu