sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Travessia da Ilha do Bananal

Assim que cheguei em São Félix do Araguaia procurei informações sobre a travessia do Rio Araguaia. Do outro lado está a Ilha do Bananal (Tocantins), por onde passa uma estrada sazonal, de pouco movimento. No período das chuvas alguns rios dentro da ilha sobem e carros não podem passar. Agora, na seca, eles ficam suficientemente rasos.

As condições da estrada variam, e recebi opiniões diversas sobre a quantidade de areia e o tempo que eu levaria para atravessar. São 100 km de uma ponta a outra, cada uma das quais com uma aldeia de índios. Nos primeiros 50 km alguns rios de onde eu poderia tirar água. Depois uns 40 km sem nada. Tem onças, mas são bem alimentadas pelo gado que criam nas áreas das fazendas.

Algumas pessoas se espantaram por eu querer atravessar a ilha sozinho, mas sabia que era possível por meio de relatos. Eu tinha um plano e alguma margem de erro para as situações que enfrentaria.

Combinei com um índio para me levar de voadeira para a ilha às 6h30 da manhã, mas ele não apareceu. Tive que procurar rápido uma alternativa. Um motoqueiro no posto de gasolina tinha o telefone de outro índio, o Bedere, e o chamou para vir me buscar da ilha. Esperei e embarquei junto com a bike. Às 7h15 chegamos do outro lado. Paguei-lhe os 30 reais combinados e ele me ensinou o caminho: seguir sempre a marca da patrola, que passara pela estrada havia poucos dias.

Parti bem hidratado, carregando 6 L de água gelada, e com o plano certo para consumi-la. A estrada é 100% plana e estava boa, com areia solta em poucos pontos, e mantive uma média de mais de 15 km/h. Mas estava quente, e há poucas árvores onde se esconder do sol. Vi pegadas de onça apenas no começo e no fim.

No km 80 encontrei uma bifurcação. À direita a marca da patrola, à esquerda a continuação do track log do percurso que uma turma de ciclistas organizada percorre anualmente em julho (periodicamente eu verificava no GPS se não estava saindo da trilha, mesmo ela estando bem marcada). Decidi pelo caminho do índio, e logo à frente um motoqueiro que passava, aproximadamente o décimo veículo a cruzar comigo no dia, confirmou o caminho.

Faltando 10 km a estrada terminou numa porteira, e continuava após uma segunda. Numa cabana próxima 3 homens trabalhavam. Pedi-lhes água. Não queria desperdiçar o último litro de gelo que sobrara numa garrafa, e estava com bastante sede.

Cruzei com um casal de índios simpáticos dirigindo uma Ecosport, e cheguei na aldeia, às margens do Rio Javaés, antes das 15h. São índios Carajás. O cacique Cláudio me convidou para um café. Uma família de brancos estava acampada. O integrante mais velho era pastor, e gastou boa parte do tempo em que estive ali me explicando que eu iria para o inferno por não carregar a bíblia, que ele lera 36 vezes, nos alforjes.

Cruzei o Rio Javaés com a água na metade das coxas. Pedalei mais 5 km e encontrei finalmente o asfalto da BR-242, após 600 km de estrada de chão. Cheguei de noite em Formoso do Araguaia.

Estatísticas:

Dia 44 (Formoso do Araguaia): 148,02 km @ 16,89 km/h, 147 m ↑

Total: 4144 km

IMG_4144 - Travessia do Rio Araguaia de voadeira

De voadeira no Rio Araguaia

IMG_4149 - Índio Bedere no Rio Araguaia

IMG_4166 - Ponte sobre o Rio Vinte e Três, Ilha do Bananal

Ponte sobre o Rio Vinte e Três

IMG_4169 - Odair desencalhando o caminhão na Ilha do Bananal

Seu Odair tentando desencalhar o caminhão desde o dia anterior

IMG_4184 - Rio Jaburu na Ilha do Bananal

Rio Jaburu

IMG_4186 - Ilha do Bananal

IMG_4189 - Tocando o gado na Ilha do Bananal

IMG_4195 - Riozinho Ilha do Bananal

Riozinho

IMG_4200 - Ilha do Bananal

IMG_4207 - Aldeia Javaés na Ilha do Bananal

Aldeia às margens do Rio Javaés

IMG_4210 - Eu e índios Carajás

IMG_4217 - Travessia do Rio Javaés

Rio Javaés

IMG_4226 - BR-242

De volta ao asfalto