segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Alto Araguaia: deserto humano

Assim que atravessei o Rio Xingu entrei no Alto Araguaia, uma região bem diferente do resto do Mato Grosso. O sotaque e a miscigenação de raças mudam. Os traços indígenas no povo são notáveis.

Por outro lado, são terras inóspitas. Só encontrei estradas de chão, cidades minúsculas ou assentamentos distantes 100 km um dos outros, e grandes fazendas. Internet, quando tem, funciona de vez em quando. Se cai, cai na cidade inteira, e isso, por sua vez, torna o cartão do banco um instrumento pouco confiável. É preciso carregar bastante dinheiro para viajar por aqui.

O sofrimento começou logo que saí de São José do Xingu. O que pensei que seriam 30 km fáceis até um posto de gasolina se transformou numa estrada com pedras, areia acumulada em alguns pontos e muitas costelas de vaca. Fiquei sem água e aproveitei para pedir a um motorista curioso sobre a viagem.

No posto me abasteci melhor para os próximos 35 km até a fábrica da Bunge. Lá um senhor tentava, sem sucesso, conseguir uma carona. Ele foi o primeiro a perguntar se eu passava necessidade por querer viajar assim. As perguntas mais comuns são se gosto de sofrer ou estou pagando promessa.

Parei no assentamento Espigão do Leste. No dia seguinte, após seguir a dica de um segurança, parei na fazenda da Maggi e pedi uma "boia" no portão de entrada. Continuei e uma caminhonete parou, logo em seguida, para conversar sobre a viagem. Dentro dela três senhores. Não reconheci imediatamente, mas o que estava no banco do passageiro era o que acabara de pagar, sem saber, a minha boia: o próprio Blairo Maggi!

Tive problemas com água de novo. Ninguém tinha água bem gelada, apenas fresca. Nessa situação, e com esse calor de quase 40 graus, hidratar-se exige o dobro de água, pelo menos no meu caso. Calculo que tomei uns 15 L no dia. Pedi para todos os curiosos que pararam, tomei água de um córrego, e fiz um caminhoneiro parar para me ajudar. Para completar o martírio levei um tombo quando passei por um ponto com areia, e machuquei o joelho. Com tanta poeira o pedal ficou preso e não consegui desencaixar a sapatilha a tempo.

O dia terminou em Alto Boa Vista, onde fui muito bem recebido. O Rafael, dono do supermercado Campeão, pagou uma janta e o hotel para mim num incrível gesto de generosidade. Dezenas de pessoas vieram conversar. Dei até uma entrevista para um grupo de estudos da cidade.

Terminei minha visita ao Mato Grosso em São Félix do Araguaia, cidade histórica. Tranquila, na beira do Rio Araguaia, ideal para descansar, como pessoas me disseram no caminho.

Estatísticas:

Dia 41 (Espigão do Leste): 101,63 km @ 13,74 km/h, 932 m ↑
Dia 42 (Alto Boa Vista): 113,41 km @ 14,34 km/h, 718 m ↑
Dia 43 (São Félix do Araguaia): 95,98 km @ 14,90 km/h, 235 m ↑

Total: 3996 km

IMG_4058 - Ema e ninhada na MT-322

IMG_4063 - Cinzas caindo do céu sobre a MT-322

Cinzas caindo do céu sobre a MT-322: o que parecia um nevoeiro era na verdade fumaça

IMG_4070 - MT-322

Muita poeira

IMG_4078 - Ferimento por tombo na MT-424

Meu joelho após o tombo

IMG_4084 - Encontro com Blairo Maggi

Blairo Maggi e eu

IMG_4094 - Córrego na MT-424

Córrego de onde pude pegar água

IMG_4095 - MT-424

MT-424

IMG_4104 - Dênis (espetinho), turma do mercado e Rafael (dono)

Pessoal de Alto Boa Vista, onde ganhei janta e hospedagem

IMG_4115 - Costelas de vaca na BR-242

Costelas de vaca na BR-242

IMG_4124 - Chegada em São Félix do Araguaia

IMG_4129 - Rio Araguaia

IMG_4132 - Rio Araguaia e Ilha do Bananal

Rio Araguaia e Ilha do Bananal

IMG_4140 - Barco no Rio Araguaia