domingo, 21 de setembro de 2014

Travessia do Jalapão (fracassada)

O Jalapão é mais deserto que o Alto Araguaia. O ponto que concentra os atrativos turísticos é a cidade de Mateiros, e para chegar lá a partir do Tocantins há duas estradas de chão, que, a exemplo do que aconteceu com a BR-080 e a Ilha do Bananal, vinham me dizendo terem areia demais e ser arriscado atravessar sozinho de bicicleta.

Optei pelo caminho mais curto, de 160 km, a partir de Ponte Alta, pela TO-255. Logo que cheguei fiquei sabendo de um senhor de 51 anos que passara ali havia uma semana e seguira para o Jalapão. Se ele pode eu também posso, pensei. Mas a grande maioria das pessoas, todas elas não ciclistas, me desestimulava fortemente. "Quer um conselho de amigo? Não vá!" Haveria trechos em que teria de empurrar por 2 km, outros com cascalho solto que cortaria o pneu. Somente veículos 4x4 passariam pela estrada.

Os donos da pousada onde fiquei, no entanto, organizam expedições e cruzam a estrada com frequência, e disseram que devagar seria possível. Explicaram os problemas da estrada. Eu encontraria pontos com água nos primeiros 40 km. Depois passaria pelo Rio Vermelho no km 60 e então seriam 60 km de estrada sem nada até o Rio Frito Gordo. Nenhuma bica ou córrego. Tem saída para uma fazenda no meio do caminho, mas o primeiro ponto de apoio fica a 22 km da estrada principal.

Parti às 7h30, mais tarde do que deveria, e encontrei uma estrada difícil desde o começo. Não pela areia, mas pelas costelas de vaca e subidas íngremes que mantinham minha média em 13 km/h. Cruzei com umas 2 ou 3 motos, possivelmente de moradores da região, até as 10 da manhã, e então veio o primeiro veículo, 4x4, cujos passageiros me cumprimentaram e ofereceram água. Junto com ele passaram mais 3 e a estrada ficou novamente deserta. Parei no km 30, penúltimo ponto de apoio. Uma senhora abriu a porta e me ofereceu um prato cheio de bananas. Contou do senhor de 51 anos. Ele pousara ali e esperara um dia e meio por uma carona. Era difícil conseguir porque as caminhonetes passavam sempre lotadas de gente e bagagem. Recomendou que eu não seguisse. Teria que empurrar mais do que pedalar.

Mas logo adiante eu encontraria os areiais de que me falavam, disse ela. Precisava especular e voltei à estrada. Não demorou para eu ter que descer e arrastar a bike com frequência. Continuei até o km 40, o último ponto de apoio. Não havia ninguém na casa. Era a sede de uma fazenda, com galpões, caixas d'água, tratores, cachorros latindo e galinhas ciscando. Uma pickup com placas de Não-Me-Toque, RS.

Enquanto comia chegou uma segunda pickup. O motorista Albino apresentou-se com seu forte sotaque gaúcho. Na caçamba mais dois homens, um deles também gaúcho e o terceiro um peão que já morava ali. Os gaúchos vinham de Coqueiros do Sul, e arrendaram aquele lote havia um mês. Convidaram-me para almoçar e pousar ali mesmo. Fiquei com a primeira metade do convite e quis usar a tarde para avaliar o meu progresso na estrada.

Os areiais aumentaram. Cada vez que chegava numa crista da estrada ondulada eu via, no quilômetro seguinte, 4 ou 5 pontos com areia. Fiz 10 quilômetros em 1h30, contando uns descansos para tomar água. Ou seja, levaria, naquelas condições, 9 h para pedalar e empurrar os 60 km entre o Rio Vermelho e o Frito Gordo. Pouca margem, de erro, concluí. Decidi percorrer mais alguns quilômetros até o Rio Vermelho para daí voltar à fazenda dos gaúchos. No dia seguinte voltaria a Ponte Alta e faria um caminho mais longo até a Bahia, passando por Natividade. Não estava disposto a esperar por uma carona.

Uma caminhonete 4x4 do Governo de Tocantins parou ao meu lado. A porta do passageiro abriu e uma mulher desceu perguntando se eu estava disposto a dar uma entrevista. Ofereceu uma carona até Mateiros. Olhei a caçamba vazia da caminhonete. As vozes lutaram por um instante na cabeça. Seria radicalismo recusar? Ou era uma oportunidade de ouro caindo na mão?

Eu poderia me arrepender se qualquer coisa desse errado na volta. Tive que aceitar. Após a entrevista, que iria ao ar em outubro em rede nacional na TV Brasil, disse que, sim, queria a carona. Coloquei a bike de pé e murchei um pouco os pneus. As duas primeiras tentativas de amarrá-la não surtiram efeito, pois o veículo sacudia demais. Na terceira, após estudar as forças que agiam sobre a bike, consegui prendê-la corretamente com 4 extensores.

A perspectiva de quem está de carro é diferente, especialmente quando o motorista Marcos, do Instituto Ambiental de Tocantins, dirigia a 80 km/h como se a estrada fosse asfaltada. Mas pude ver tanta areia quanto tinham me contado em Ponte Alta. Nos areiais mais críticos a caminhonete reduzia para 20 km/h. Alguns tinham mais de 500 m de extensão. Correria risco de vida se tentasse. Fizera a escolha certa.

Estatísticas:

Dia 49 (Mateiros*): 57,06 km @ 10,79 km/h, 798 m ↑

Total: 4627 km

IMG_4359 - Ponte Alta do Tocantins

Ponte Alta do Tocantins

IMG_4368 - Cachoeira da Sussuapara

Cachoeira da Sussuapara

IMG_4382 - Lanche na TO-255

Lanche do km 30

IMG_4392 - Areia na TO-255

IMG_4394 - Carregando a bike na TO-255

Impossível pedalar nos areiais sem uma bike apropriada

IMG_4395 - TO-255

IMG_4404 - Equipe de reportagem da TV Brasil no Jalapão

Eu com a equipe de reportagem da TV Brasil

IMG_4407 - Carona na TO-255

IMG_4411 - Rio Novo no Jalapão

Rio Novo, um dos últimos rios de água potável do mundo

IMG_4421 - Serra do Espírito Santo no Jalapão

Serra do Espírito Santo

IMG_4422 - Dunas do Jalapão

Dunas do Jalapão

sábado, 20 de setembro de 2014

Tocantins: subidas íngremes, calor e gente boa

De Formoso do Araguaia a intenção era chegar até Ponte Alta do Tocantins, o "Portal do Jalapão", por caminhos alternativos. Encontrei estradas asfaltadas excelentes para pedalar. Metade do percurso foi em trechos relativamente planos. A outra metade, no entanto, tinha subidas tão íngremes quanto possível, onde era necessário usar a marcha mais leve da bike (relação 22/32).

Passei por Dueré, Aliança do Tocantins e Brejinho de Nazaré. Em Brejinho, após mais uma manhã quente, procurei um restaurante para almoçar, e me indicaram o Feijão Queimado. Duas senhoras saíam de carro quando cheguei, impressionaram-se com a viagem, e me deram 20 reais para almoçar.

Sentei à mesa e pedi um PF, que veio bem servido. O garçom, Ítalo, trouxe-me meio jarro de água gelada, pouco mais de meio litro, e o esvaziei imediatamente. Pedi-lhe mais e então ele veio cheio, com uma grande pedra de gelo. Terminei o prato, continuava com sede, e o Ítalo precisou trazer um terceiro jarro. Esses dias por aqui têm sido assim. Desidrato rápido pela manhã. Tive a oportunidade de me pesar antes e depois de almoçar uma vez: ganho 4 quilos!

Paguei a conta e segui em direção a Porto Nacional. 8 km depois vejo, pelo retrovisor, uma moto buzinando e dando sinal de luz. Veio pela minha direita, fez sinal para encostar. Parei e o piloto tirou o capacete. Era o Ítalo: "Não esqueceu de nada, não?" Sim, ainda não sabia, mas eu esquecera meu cartão de crédito no balcão do restaurante.

De Porto Nacional eu poderia já pegar a estrada para Ponte Alta, mas lembrei que precisava sacar dinheiro, coisa que não fazia desde Sorriso, MT. Tive que seguir em direção a Palmas. Em Taquaral, na periferia sul da cidade, achei um caixa 24h, e ali mesmo entrei no trevo para Taquaruçu, a estrada mais curta para quem vai de Palmas para o Jalapão.

Taquaruçu é um destino de fim de semana dos palmenses. Cercada de montanhas e nascentes e 300 m acima do Rio Tocantins ela é, em média, uns 5 graus mais fria que a capital, mesmo a apenas 30 km de distância. O único hotel que encontrei custaria 85 reais, e não servia café da manhã. O camping custava 30. Diante de tais alternativas preferi tentar a sorte em um quintal. Deu certo na primeira tentativa, e fui melhor recebido que em qualquer lugar pago. Já fiz isso outras vezes, mas toda vez a bondade das pessoas me surpreende.

Estatísticas:

Dia 45 (Aliança do Tocantins): 119,50 km @ 16,47 km/h, 987 m ↑
Dia 46 (Porto Nacional): 110,66 km @ 17,40 km/h, 573 m ↑
Dia 47 (Taquaruçu): 76,26 km @ 16,36 km/h, 529 m ↑
Dia 48 (Ponte Alta): 119,88 km @ 17,93 km/h, 1361 m ↑

Total: 4570 km

IMG_4236 - Arara em fazenda na TO-070

IMG_4247 - Comitiva na TO-070

IMG_4252 - Marcas da comitiva na TO-070

Marcas de uma comitiva

IMG_4291 - Rio Tocantins

Rio Tocantins

IMG_4312 - Cachoeira de Taquaruçu

Cachoeira de Taquaruçu

IMG_4317 - Taquaruçu

IMG_4330 - Serra de Taquaruçu

Serra de Taquaruçu

IMG_4336 - TO-030

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Travessia da Ilha do Bananal

Assim que cheguei em São Félix do Araguaia procurei informações sobre a travessia do Rio Araguaia. Do outro lado está a Ilha do Bananal (Tocantins), por onde passa uma estrada sazonal, de pouco movimento. No período das chuvas alguns rios dentro da ilha sobem e carros não podem passar. Agora, na seca, eles ficam suficientemente rasos.

As condições da estrada variam, e recebi opiniões diversas sobre a quantidade de areia e o tempo que eu levaria para atravessar. São 100 km de uma ponta a outra, cada uma das quais com uma aldeia de índios. Nos primeiros 50 km alguns rios de onde eu poderia tirar água. Depois uns 40 km sem nada. Tem onças, mas são bem alimentadas pelo gado que criam nas áreas das fazendas.

Algumas pessoas se espantaram por eu querer atravessar a ilha sozinho, mas sabia que era possível por meio de relatos. Eu tinha um plano e alguma margem de erro para as situações que enfrentaria.

Combinei com um índio para me levar de voadeira para a ilha às 6h30 da manhã, mas ele não apareceu. Tive que procurar rápido uma alternativa. Um motoqueiro no posto de gasolina tinha o telefone de outro índio, o Bedere, e o chamou para vir me buscar da ilha. Esperei e embarquei junto com a bike. Às 7h15 chegamos do outro lado. Paguei-lhe os 30 reais combinados e ele me ensinou o caminho: seguir sempre a marca da patrola, que passara pela estrada havia poucos dias.

Parti bem hidratado, carregando 6 L de água gelada, e com o plano certo para consumi-la. A estrada é 100% plana e estava boa, com areia solta em poucos pontos, e mantive uma média de mais de 15 km/h. Mas estava quente, e há poucas árvores onde se esconder do sol. Vi pegadas de onça apenas no começo e no fim.

No km 80 encontrei uma bifurcação. À direita a marca da patrola, à esquerda a continuação do track log do percurso que uma turma de ciclistas organizada percorre anualmente em julho (periodicamente eu verificava no GPS se não estava saindo da trilha, mesmo ela estando bem marcada). Decidi pelo caminho do índio, e logo à frente um motoqueiro que passava, aproximadamente o décimo veículo a cruzar comigo no dia, confirmou o caminho.

Faltando 10 km a estrada terminou numa porteira, e continuava após uma segunda. Numa cabana próxima 3 homens trabalhavam. Pedi-lhes água. Não queria desperdiçar o último litro de gelo que sobrara numa garrafa, e estava com bastante sede.

Cruzei com um casal de índios simpáticos dirigindo uma Ecosport, e cheguei na aldeia, às margens do Rio Javaés, antes das 15h. São índios Carajás. O cacique Cláudio me convidou para um café. Uma família de brancos estava acampada. O integrante mais velho era pastor, e gastou boa parte do tempo em que estive ali me explicando que eu iria para o inferno por não carregar a bíblia, que ele lera 36 vezes, nos alforjes.

Cruzei o Rio Javaés com a água na metade das coxas. Pedalei mais 5 km e encontrei finalmente o asfalto da BR-242, após 600 km de estrada de chão. Cheguei de noite em Formoso do Araguaia.

Estatísticas:

Dia 44 (Formoso do Araguaia): 148,02 km @ 16,89 km/h, 147 m ↑

Total: 4144 km

IMG_4144 - Travessia do Rio Araguaia de voadeira

De voadeira no Rio Araguaia

IMG_4149 - Índio Bedere no Rio Araguaia

IMG_4166 - Ponte sobre o Rio Vinte e Três, Ilha do Bananal

Ponte sobre o Rio Vinte e Três

IMG_4169 - Odair desencalhando o caminhão na Ilha do Bananal

Seu Odair tentando desencalhar o caminhão desde o dia anterior

IMG_4184 - Rio Jaburu na Ilha do Bananal

Rio Jaburu

IMG_4186 - Ilha do Bananal

IMG_4189 - Tocando o gado na Ilha do Bananal

IMG_4195 - Riozinho Ilha do Bananal

Riozinho

IMG_4200 - Ilha do Bananal

IMG_4207 - Aldeia Javaés na Ilha do Bananal

Aldeia às margens do Rio Javaés

IMG_4210 - Eu e índios Carajás

IMG_4217 - Travessia do Rio Javaés

Rio Javaés

IMG_4226 - BR-242

De volta ao asfalto

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Alto Araguaia: deserto humano

Assim que atravessei o Rio Xingu entrei no Alto Araguaia, uma região bem diferente do resto do Mato Grosso. O sotaque e a miscigenação de raças mudam. Os traços indígenas no povo são notáveis.

Por outro lado, são terras inóspitas. Só encontrei estradas de chão, cidades minúsculas ou assentamentos distantes 100 km um dos outros, e grandes fazendas. Internet, quando tem, funciona de vez em quando. Se cai, cai na cidade inteira, e isso, por sua vez, torna o cartão do banco um instrumento pouco confiável. É preciso carregar bastante dinheiro para viajar por aqui.

O sofrimento começou logo que saí de São José do Xingu. O que pensei que seriam 30 km fáceis até um posto de gasolina se transformou numa estrada com pedras, areia acumulada em alguns pontos e muitas costelas de vaca. Fiquei sem água e aproveitei para pedir a um motorista curioso sobre a viagem.

No posto me abasteci melhor para os próximos 35 km até a fábrica da Bunge. Lá um senhor tentava, sem sucesso, conseguir uma carona. Ele foi o primeiro a perguntar se eu passava necessidade por querer viajar assim. As perguntas mais comuns são se gosto de sofrer ou estou pagando promessa.

Parei no assentamento Espigão do Leste. No dia seguinte, após seguir a dica de um segurança, parei na fazenda da Maggi e pedi uma "boia" no portão de entrada. Continuei e uma caminhonete parou, logo em seguida, para conversar sobre a viagem. Dentro dela três senhores. Não reconheci imediatamente, mas o que estava no banco do passageiro era o que acabara de pagar, sem saber, a minha boia: o próprio Blairo Maggi!

Tive problemas com água de novo. Ninguém tinha água bem gelada, apenas fresca. Nessa situação, e com esse calor de quase 40 graus, hidratar-se exige o dobro de água, pelo menos no meu caso. Calculo que tomei uns 15 L no dia. Pedi para todos os curiosos que pararam, tomei água de um córrego, e fiz um caminhoneiro parar para me ajudar. Para completar o martírio levei um tombo quando passei por um ponto com areia, e machuquei o joelho. Com tanta poeira o pedal ficou preso e não consegui desencaixar a sapatilha a tempo.

O dia terminou em Alto Boa Vista, onde fui muito bem recebido. O Rafael, dono do supermercado Campeão, pagou uma janta e o hotel para mim num incrível gesto de generosidade. Dezenas de pessoas vieram conversar. Dei até uma entrevista para um grupo de estudos da cidade.

Terminei minha visita ao Mato Grosso em São Félix do Araguaia, cidade histórica. Tranquila, na beira do Rio Araguaia, ideal para descansar, como pessoas me disseram no caminho.

Estatísticas:

Dia 41 (Espigão do Leste): 101,63 km @ 13,74 km/h, 932 m ↑
Dia 42 (Alto Boa Vista): 113,41 km @ 14,34 km/h, 718 m ↑
Dia 43 (São Félix do Araguaia): 95,98 km @ 14,90 km/h, 235 m ↑

Total: 3996 km

IMG_4058 - Ema e ninhada na MT-322

IMG_4063 - Cinzas caindo do céu sobre a MT-322

Cinzas caindo do céu sobre a MT-322: o que parecia um nevoeiro era na verdade fumaça

IMG_4070 - MT-322

Muita poeira

IMG_4078 - Ferimento por tombo na MT-424

Meu joelho após o tombo

IMG_4084 - Encontro com Blairo Maggi

Blairo Maggi e eu

IMG_4094 - Córrego na MT-424

Córrego de onde pude pegar água

IMG_4095 - MT-424

MT-424

IMG_4104 - Dênis (espetinho), turma do mercado e Rafael (dono)

Pessoal de Alto Boa Vista, onde ganhei janta e hospedagem

IMG_4115 - Costelas de vaca na BR-242

Costelas de vaca na BR-242

IMG_4124 - Chegada em São Félix do Araguaia

IMG_4129 - Rio Araguaia

IMG_4132 - Rio Araguaia e Ilha do Bananal

Rio Araguaia e Ilha do Bananal

IMG_4140 - Barco no Rio Araguaia

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Travessia da Reserva do Xingu (BR-080)

Quando planejei atravessar a Reserva do Xingu eu quase não tinha informações sobre a BR-080 (ou a denominação mais recente, MT-322). Na internet havia notícias dizendo que ela ficou intransitável em determinado período devido às chuvas ou, ainda, que faltariam apenas 80 km de asfalto entre Matupá e Confresa. Sabendo ser essa a época da seca procurei não me preocupar, mas conversas na estrada e expressões de espanto diante da minha ideia me faziam repensar sobre o assunto. "Se chover você não atravessa", "não tem nada no caminho", entre outros.

A estrada foi se mistificando, pois ninguém dizia nada preciso. Até que em Peixoto de Azevedo, 5 km antes do trevo para a BR-080, parei para perguntar a um taxista onde encontraria água gelada a frente, para abastecer conforme a necessidade. Seu nome era Elias e quis saber o meu plano, enquanto relaxava sob a sombra de uma árvore em sua cadeira de balanço. Ele conhecia a estrada de uma ponta a outra. Tirei o tablet da pochete para anotar tudo o que pudesse. Ao final filosofou sobre o significado de uma viagem solitária como a que eu fazia, comparando-a com aquela que ele fizera de carro até o Maranhão. Eu deveria anotar tudo, registrar com vídeos e fotos para a posteridade.

Cheguei no trevo que também era a entrada de Matupá, enchi as garrafas no Posto Trevão, e entrei então na estrada que ocupava minha cabeça havia dias. Um asfalto recente, de acostamento estreito mas em perfeito estado e pouquíssimo tráfego. Após os quilômetros iniciais aparece um gramado de 15 m de largura para cada lado separando a estrada de um pedaço de vegetação, em que as árvores alcançam 30 m de altura. Na verdade aquilo é apenas uma faixa que esconde as fazendas, mas é bonito assim mesmo.

O asfalto termina depois de 50 km, e começa uma estrada de terra bem compactada. Aparece então o primeiro vilarejo desde Matupá, o "A1 da União". Um pouco adiante chega-se em União do Norte, onde decidi parar.

A vila tinha mais estrutura do que eu imaginava. Um posto BR, supermercado, restaurante, 3 hotéis diferentes. Fiquei no Hotel Rio Claro. A dona, Vera, chegara ali havia poucos anos. Explicou-me que aquele era o maior assentamento da América Latina. Às 5h20 da manhã seguinte já estava trazendo o pão quente da padaria.

Comecei o dia pedalando por uma estrada um pouco pior, mas no geral confortável. No km 20 um senhor me chamou aos berros da frente de um bar para um lanche quando me viu passar. Alertou-me para as onças da Reserva e disse como proceder caso visse uma.

No km 50 passei reto pela Comunidade Jarinã e parei para lanchar num trecho deserto adiante. Encontrei uns poucos restaurantes espalhados ao longo da estrada e terminei o dia no último deles, o Restaurante JD, aos 120 km.

Na frente duas senhoras conversavam. Havia dormitórios e redes do lado de fora mas perguntei-lhes sobre a possibilidade de acampar. Elas não sabiam informar porque não trabalhavam ali, mas avisaram que dias antes uma onça matara um porco e talvez não fosse uma boa ideia.

Chamaram a Dona Judite. Esta explicou que eu poderia acampar e usar os banheiros de graça, e que a onça não me pegaria. A janta, se eu quisesse, custaria 15 reais. Ela era de Ponta Grossa e as duas senhoras, Jane e Iara, eram suas irmãs lhe fazendo uma visita.

Armei a barraca e tomei banho. Ao voltar sentei em uma das mesas. Havia várias delas, todas arrumadas, como se convidados fossem certos. Uma cerca baixa de madeira separava o bar da estrada. No balcão, ao fundo, uma TV de 50 polegadas transmitindo a Globo. À esquerda uma prateleira com doces e à direita garrafas de uísque barato.

Dali a pouco carros e caminhões foram chegando e logo 15 pessoas enchiam as mesas do pequeno restaurante. Dona Judite convidou todos para irem a sua cozinha se servir. Lá dentro um fogão a lenha com panelões: arroz, feijão branco, feijão preto, batatas cozidas, macarrão, linguiça de porco, pernil de porco, e frango assado. Servi-me 3 vezes daquela comida deliciosa.

Os que ali paravam estavam apenas de passagem. A travessia do Rio Xingu depende de uma balsa que opera somente até as 17h. As condições da BR-080 torna em alguns casos inviável, mesmo para quem está de carro, atravessá-la em menos de um dia. O Restaurante JD situa-se a 2 km da Reserva do Xingu, que tem 40 km de extensão para cada lado da margem do rio, e onde ninguém pode parar.

Fui dormir. As 22h o gerador a diesel seria desligado.

Às 4h15 ouvi um caminhão dar a partida. Era grande, e puxava dois semirreboques. Levantei um pouco depois para desarmar a barraca e tomar um café que Seu Dulcino, esposo de Dona Judite, preparara. Trouxe-me pão caseiro com margarina. Ele era de Matupá, e estabelecera-se ali havia 15 anos, por falta de opções. Não sabia o que aconteceria caso o asfaltamento da BR-080, prometido há anos, fosse finalmente realizado.

Saí às 5h50, pouco depois do nascer do sol, para percorrer os 80 km da Reserva. Falaram-me de areiões, e eu precisava aproveitar cada hora do dia. Fazia apenas 14 graus.

A mata se fechou com árvores não muito altas ao entrar na reserva. A paisagem não mudou. Macacos e diferentes aves eram visíveis da estrada. Encontrei pegadas de onça recentes, deixadas sobre o trilho que os veículos desenhavam.

Pedalei com uma média boa, esperando pelos areiões, mas eles não vieram. Tem areia, mas somente em alguns pontos. Também tive a sorte de ter caído uma forte chuva poucos dias antes que deve ter compactado a superfície. A estrada, no entanto, é muito irregular e complicada para qualquer veículo com duas rodas por eixo.

Cheguei no Rio Xingu e encontrei o caminhão das 4h15 ainda esperando pela balsa. Conversamos sobre os índios, que a operam. Muitos já tinham me alertado para isso. São "embaçados", cobram caríssimo, não pode tirar foto senão eles levam a máquina etc.

A balsa atracou. Subimos o caminhão, um carro, uma moto e eu. O caminhão ficou no meio. O carro, a moto, e um índio entre o caminhão e o rebocador, e eu com a bicicleta entre o caminhão e o corrimão da balsa do lado oposto. A balsa ficou encalhada e foi preciso usar o impulso do caminhão que arrancava, freava e dava marcha-a-ré em ciclos.

Fiquei olhando por debaixo da carroceria do caminhão para me certificar de que o índio estava do lado oposto enquanto eu tirava fotos. Ao final da travessia ele deu a volta e se aproximou. Chinelo de dedo, bermuda e camiseta azul. Rabo de cavalo, dentes incisivos careados formando um "V". "Quanto pagar?", perguntou, olhando para a bicicleta. Ele queria saber o preço dela para me cobrar o pedágio. Obviamente que esses índios não se preocupam com custo operacional ou impacto deixado pelo veículo em sua terra. Eles querem apenas saber o quanto você é capaz de pagar. Carros de luxo pagam mais caro que carros comuns, por exemplo. Desconversei, e ele me disse: "É 30". Paguei sem argumentar, lembrando ser esse o preço para uma moto. Queria sair rápido e evitar a aproximação de algum dos índios que se reuniam perto do ponto onde a balsa atracou.

Logo no começo da estrada do outro lado, vi a aldeia deles. Apareceram bem mais areiões dali em diante, mas ainda assim nada muito duro para a bicicleta.

A travessia foi mais fácil do que imaginei pelas conversas com as pessoas ainda do outro lado do Xingu. A BR-080 foi desmistificada. Cheguei às 12h30 em São José do Xingu, exausto, e gastei a tarde dormindo.

Estatísticas:

Dia 38 (União do Norte): 117,87 km @ 17,53 km/h, 977 m ↑
Dia 39 (Restaurante JD): 121,55 km @ 14,71 km/h, 832 m ↑
Dia 40 (São José do Xingu): 91,87 km @ 15,39 km/h, 548 m ↑

Total: 3685 km

IMG_3839 - Saída para MT-322

IMG_3857 - MT-322

BR-080 (MT-322)

IMG_3868 - MT-322

IMG_3872 - MT-322

IMG_3897 - União do Norte

União do Norte

IMG_3918 - MT-322

IMG_3942 - MT-322

IMG_3951 - MT-322

IMG_3964 - Ponte na MT-322 (km 149)

IMG_3988 - Cozinha da Dona Judite

Cozinha da Dona Judite

IMG_3991 - Restaurante JD

Restaurante JD

IMG_3993 - Início da Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

Início da Reserva do Xingu

IMG_3997 - Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

IMG_4002 - Sujeira da MT-322

IMG_4015 - Pegadas de onça na Reserva do Xingu - MT-322 (Oeste)

Pegadas de onça

IMG_4023 - Balsa sobre o Rio Xingu - MT-322

IMG_4024 - Balsa sobre o Rio Xingu - MT-322

Balsa sobre o Rio Xingu

IMG_4031 - Aldeia na Reserva do Xingu - MT-322 (Leste)

Aldeia na Reserva do Xingu

IMG_4047 - São José do Xingu