quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Travessia do Pantanal da Nhecolância e Paiaguás cancelada, mudança de roteiro

A travessia do Pantanal da Nhecolândia e Paiaguás foi cancelada. Não expliquei do que se tratava mas faço agora.

Meses atrás entrei em contato com o autor de alguns posts relatando um trajeto difícil e pouco conhecido pelas fazendas do Pantanal. Ele me motivou dizendo que não teria como errar se eu apenas seguisse a rota do GPS que ele estava me passando, e me recomendou os "descobridores" dela, o Hécson e o Jordão, de Campo Grande, para detalhes. O Hécson foi mais cauteloso em nossas conversas, mas eu seguia motivado com a ideia inicial e não cuidei de muitos detalhes até chegar em Campo Grande.

Consistia em seguir pela MS-080 até Rio Negro e depois percorrer 50 km na Estrada do Corixão. A partir dela eu atravessaria diferentes vazantes para alcançar as fazendas, de forma a desviar das estradas de areia onde não é possível fazer nada que não seja empurrar a bike. Cruzaria a ponte sobre o Rio Taquari, 90 km a Oeste de Coxim, e da mesma forma chegaria a Porto Jofre, no Sudoeste do Mato Grosso, onde começa (ou termina) a Transpantaneira.

Em Campo Grande entendi melhor a empreitada a que tinha me proposto. Primeiramente havia a questão da água, que é salobra no Pantanal, e "parece não matar a sede", segundo me disseram. Eu teria que manter vários litros de água sempre como reserva para o caso de gastar várias horas para cruzar alguns quilômetros de areião. Teria também que mantê-la fresca. Quem vai para o Pantanal de bike costuma levar uma garrafa térmica de 5 litros na garupa. Achei pouco prático e pensei em embrulhar garrafas PET no saco de dormir (isso se revelaria uma excelente ideia).

Eu também estava mal-equipado: pneus lisos de 2 polegadas, quando o certo seriam pneus com travas de no mínimo 2,2 polegadas. O Hécson levou um GPS mais confiável (Garmin) e a pessoa que me passou a rota do GPS tinha um beacon localizador, que envia mensagens via satélite com coordenadas e possui um botão para pedir socorro.

Descobri ainda algo não relatado nos posts que encontrei na Internet: o autor chegou a ficar sem água, abandonando a bike para conseguir chegar na fazenda, e pegou carona de trator nos últimos 20 km antes de Porto Jofre.

Comunicação com a família seria incerta: em fazendas com melhor estrutura há torres com antenas que são plugadas diretamente à placa do celular, mas mesmo assim nem sempre se consegue captar o sinal a dezenas de quilômetros de distância.

Tudo isso me deixou ansioso na saída de Campo Grande. Fiquei medindo distâncias entre as fazendas, e testando a paciência do Hécson com perguntas.

Mas finalmente parti, já atrasado para cumprir a distância até Rio Negro no primeiro dia. Logo no início da MS-080 parei para pedir água gelada em uma fazenda e tive uma agradável surpresa: pantaneiros almoçavam um carreteiro às 10 h da manhã e me convidaram para comer um prato e tomar refrigerante com eles. Contei-lhes do meu plano e ficaram impressionados. Lembraram da história, bem conhecida por aqui, de um canadense que, com sua noiva, a cavalo, fizeram um trajeto parecido.

Na próxima parada um senhor insistiu, preocupado, para que jamais deixasse de avisar a família. Em outra uma senhora me alertou para o perigo das onças: recentemente uma teria atacado um pantaneiro que conduzia o gado. E que é perigoso andar de bike: seu filho morrera de infarto pedalando. Concluí que não deveria anunciar meus planos a mais pessoas para não ser desmotivado.

Peguei bastante vento contra e cheguei no final da tarde, com algum custo, em Corguinho. No único hotel da cidade um rapaz que usava dois bonés, um por cima do outro, me atendeu. O quarto mais simples custava 50 reais, caríssimo pelo que oferecia: ventilador, banheiro, Internet, e um salgado do restaurante anexo e uma xícara de café com leite no café da manhã.

Comecei o dia seguinte com um arranjo diferente: a barraca foi para o lado de fora dos alforjes e, no seu lugar, coloquei as garrafas PET, embrulhadas no saco de dormir. Vesti calça e camisa de manga longa por causa do Sol mais forte a cada dia. Na estrada vi araras, papagaios, e um veado. Boiadas passavam a me acompanhar quando eu me aproximava, como se eu fosse o condutor a cavalo.

Num posto em Rio Negro abasteci as garrafas com água gelada. Almocei bem e comi sobremesa. Troquei o capacete por algo mais apropriado agora: um chapéu. Atingi a bifurcação para o Corixão, onde começou a estrada de terra. Tive problemas com o pneu logo no início, onde alguma areia se acumulava: parecia menos aderente agora do que nos testes que fizera antes de sair de Colombo.

Um motoqueiro recomendou que eu fosse para Aquidauana, ao Sul, ou Coxim, ao Norte, por estradas de terra, que são rotas bonitas. O motorista de uma caminhonete me informou sobre a Estrada Parque, entre Miranda e Corumbá, como alternativa.

Já era tarde, e decidi pousar na Colônia São Luiz, ainda a 45 km do ponto de início do desafio. Parei no primeiro lugar com gente na frente, um bar, cujo dono, Seu João Mateus, me aceitou sem hesitar. Perguntei-lhe sobre o estado das vazantes e não soube informar. Eu teria que falar com o condutor de alguma comitiva para saber. Disse que choveram 220 mm duas semanas antes e talvez ainda não estivesse seco. Ali a chuva é algo importante. Ninguém diz "choveu muito" ou "choveu pouco". Dizem "choveram X milímetros".

Logo fregueses apareceram e alguns me informaram sem muita certeza que as vazantes não estavam secas. Hesitei. Não queria pedalar mais 40 km por estrada de chão e ter que voltar. Confiei na informação -- como que torcendo para ser verdade, pois aliviaria minha ansiedade -- e, horas depois, já tinha um novo roteiro montado: iria a Corumbá, no intuito de conhecer Bonito e a Estrada Parque, tomar um ônibus para Campo Grande e, de lá, ir a Cuiabá de bike. No mapa ficaria uma rota contínua desde Curitiba, com uma perna até Corumbá.

Estatísticas:

Dia 10: 114,89 km @ 16,48 km/h, 910 m ↑
Dia 11: 94,53 km @ 15,48 km/h, 993 m ↑

IMG_2771 - Bike e eu em Campo Grande

IMG_2773 - Ciclovia em Campo Grande

Ciclovia em Campo Grande

IMG_2780 - Eu e Jordão

Eu e Jordão

IMG_2783 - Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

IMG_2784 - Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

IMG_2788 - MS-080

MS-080

IMG_2819 - Arara-canindé na MS-080

Arara-canindé

IMG_2823 - MS-080

IMG_2827 - MS-080

IMG_2834 - Chegada em Rio Negro

IMG_2838 - Última sobremesa da cidade antes de entrar no Pantanal

Última sobremesa da cidade antes de entrar no Pantanal: rapadura, rapadura com leite, rapadura com leite e coco, banana e doce de banana

IMG_2845 - Boiada seguindo o cicloturista na MS-080

Boiada seguindo o cicloturista

IMG_2853 - Ovelhas na estrada de acesso para o Corixão

Estrada de acesso para o Corixão

IMG_2855 - Rastro da dança da bike sobre a areia

Rastro da dança da bike sobre a areia

IMG_2862 - Siriema na estrada de acesso para o Corixão

Siriema

IMG_2870 - Tamanduá-bandeira rondando o acampamento

Uma inesperada visita ao sair da barraca de madrugada: um tamanduá-bandeira