terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pantanal Sul, cheia em época de seca

Chovia na manhã do dia 13 em Aquidauana. Refiz contas de distâncias e decidi ficar mais um dia ali e cancelar a visita a Bonito. Eu teria que pedalar na chuva em estrada de terra e gastar um dia inteiro para conhecer qualquer coisa. É uma cidade turística onde não se faz nada sem se contratar um guia.

Mas no hotel em que acabei me instalando atendia um senhor antipático e avarento. O café da manhã consistia em bolo, pão fatiado e um pote separado para cada hóspede com exatamente uma fatia de queijo e uma de presunto. Pedi ao senhor para usar um tanque e um pedaço do varal nos fundos -- que não estavam sendo nem seriam usados durante todo o dia -- para lavar a minha roupa, mas ele negou com rispidez. Fui então ao mercado comprar sabão e lavei tudo no banheiro. Estendi as roupas numa corda de varal que comprara para alguma emergência, esticada dentro do quarto. À tarde fiz uma manutenção neste blog porque não conseguia mais escrever nele a partir do tablet.

No outro dia fez tempo bom, e cheguei cedo em Miranda. Numa agência de turismo me informei sobre a situação da Estrada Parque, que eu queria cruzar para chegar a Corumbá, e a resposta foi desanimadora: a cheia do Rio Paraguai, que não acontece nessa época há décadas, só permite ir até a Curva do Leque -- metade do caminho --, e também não é possível ver tantos bichos.

Passeando pela cidade cruzei com um ciclista carregado que não parei por parecer mais um muambeiro do que um cicloturista. Fui procurar hospedagem. Na primeira tinha um quarto sujo com cheiro de esgoto, e o atendente me recomendou que fosse a outro hotel porque os donos daquele não cuidavam do estabelecimento. Fiquei no Hotel Miranda. Quando sentei na recepção do hotel para escrever chegou um casal de cicloturistas, e ajudei-lhes a escolher um quarto barato, que ficava ao lado do meu. Eram Mark e Katja Lodge, e viajavam pelo mundo havia mais de um ano. Chegavam de Bonito. Saímos jantar mas não pedalaríamos juntos porque seguiam num ritmo mais lento.

Na manhã seguinte um hóspede me abordou durante o café no hotel ao ver minha sapatilha. Era mais um cicloturista, Felipe Baenninger, que executava seu Projeto Transite. Hospedou-se no quarto ao lado do de Mark e Katja. Viajava também há mais de um ano, com o objetivo de fotografar ciclistas das 27 capitais do Brasil, num trajeto de mais de 18 mil km. Contou-me que na cidade havia ainda um artesão que viajava sem dinheiro e um "italiano louco". Uma incrível coincidência.

Segui para a Estrada Parque com o objetivo de ver qualquer resquício de vida selvagem e não perder a viagem. Alguns quilômetros após o Passo do Lontra encontrei o "muambeiro" que encontrara em Miranda, consertando o bagageiro quebrado. Tratava-se do Ernani, o italiano de quem o Felipe me falara. Viajava há 20 meses só pela América do Sul e usava uma bicicleta muito simples. Não tinha o freio de trás, e pagara 5 dólares por uma das rodas e 7 pela outra. Levava uma bomba de pé para encher o pneu.

Ernani disse ter passado uma noite com o artesão, o outro cicloturista, que seria ainda mais "mulambiker". Deu-lhe um selim de presente porque o que ele usava seria muito ruim. Comecei a achar minha bicicleta antiga luxuosa perto do que via (e ouvia).

Fui até a Fazenda Santa Clara, 25 km para dentro da Estrada Parque, após indicação de que lá encontraria um camping por preço acessível. Ao chegar soube que custava 90 reais. Voltei então pela mesma estrada e fiquei no Passo do Lontra. Não iria até a Curva do Leque porque acreditava que não haveria nada novo além do que já vira naqueles primeiros quilômetros: um veado, dois ou três jacarés, e várias aves que não conhecia.

Continuei pela BR-262, uma estrada muito plana cujo acostamento variava de perfeito a inexistente, e por onde vinha desde Aquidauana. Pouco depois da ponte sobre o Rio Paraguai parei em um posto de fiscalização agropecuária. O pessoal que ali trabalhava me deu almoço e uma camiseta de um batalhão de polícia de Campo Grande.

Em Corumbá passei duas noites num couchsurfing e tomei um ônibus para Campo Grande. Embrulhei a bicicleta em sacos plásticos e alguns pedaços de papelão e ela embarcou pela Viação Andorinha apenas com um nariz torto do motorista.

Estatísticas:

Dia 14: 81,03 km @ 18,56 km/h, 678 m ↑
Dia 15: 146,79 km @ 19,82 km/h, 192 m ↑
Dia 16: 132,82 km @ 18,80 km/h, 438 m ↑

IMG_2925 - Quarto com varal em Aquidauana

Secando roupa no quarto em Aquidauana

IMG_2939 - BR-262

IMG_2957 - Miranda

IMG_2965 - Quarto do Hotel Miranda

Quartos do Hotel Miranda: da direita para a esquerda o meu, o de Mark e Katja e o de Felipe

IMG_2968 - Mark, eu e Katja, jantando em Miranda

Mark, eu e Katja Lodge, jantando em Miranda

IMG_2970 - Saída de Miranda

Saída de Miranda

IMG_2973 - Gavião-carcará

Gavião-carcará

IMG_2976 - Tuiuiu

Tuiuiu

IMG_2992 - BR-262

Longos retões na BR-262

IMG_3003 - Passo do Lontra

Rio Miranda cruzando o Passo do Lontra

IMG_3005 - Passo do Lontra

IMG_3007 - O italiano Ernani e seu bagageiro quebrado

O italiano Ernani e sua bicicleta simples com bagageiro quebrado

IMG_3009 - Eu e Ernani

IMG_3012 - Porco-queixada

Porco-queixada

IMG_3014 - Veado

Veado

IMG_3025 - Ponte sobre o Rio Paraguai

IMG_3028 - Ponte sobre o Rio Paraguai

Ponte sobre o Rio Paraguai

IMG_3034 - BR-262

IMG_3038 - Almoço no Posto de Fiscalização Agropecuário

Almoço com gente finíssima no Posto de Fiscalização Agropecuário

IMG_3042 - Rio Paraguai em Corumbá

Rio Paraguai em Corumbá

IMG_3047 - Bike embalada para viagem de Corumbá a Campo Grande

Bike embalada para viagem de Corumbá a Campo Grande