domingo, 17 de agosto de 2014

Aventura na BR-419

Quando levantei havia um furo para consertar. Era uma ferpa minúscula e, ao tentar tirá-la com a alicate, acabei enterrando-a de novo na borracha do pneu. Teria que esperar ele furar de novo.

Saí um pouco tarde para a distância a que me propus fazer, pelo menos uns 150 km de estrada de terra, após tomar um café que a Dona Solange me ofereceu.

Voltei 5 km pela mesma estrada e cheguei na bifurcação para Aquidauana, atravessando uma ponte de madeira, no início da BR-419. Eu passaria por quase 40 delas até chegar na próxima cidade. O clima estava agradável e logo vi um pouco da vida selvagem: um gavião, muitos papagaios e maçaricos. A pista era 100% plana, e fiquei na expectativa de que chegaria em Aquidauana ainda de dia. Avistei uma comitiva e me aproximei para conversar. O condutor, Sr. Mauro, afirmou que as vazantes não estavam secas entre o Corixão e o Rio Taquari e, portanto, não haveria condições de eu atravessar a Nhecolândia de bike.

O sol esquentou, mas eu seguia num bom ritmo. No km 50 começaram as costelas de vaca e, poucos quilômetros depois, parei em uma vila pedir água gelada. Após a senhora me abastecer fui comer algo na sombra e verifiquei que o pneu tinha furado novamente, como eu esperava. Comecei a desmontá-lo e o senhor da casa me ofereceu almoço. Tirei a ferpa com o instrumento certo, um cortador de unha, terminei o conserto, almocei e fui embora sem me despedir porque o senhor já roncava no sofá. Encontrei outra comitiva que mais uma vez confirmou o estado das vazantes. Esse pessoal achava estranho eu viajar de bike. Mais cedo o Sr. Mauro perguntara se eu vendia alguma coisa. O Seu João Mateus, da Colônia São Luiz, dissera que eu fazia uma penitência. Agora esses me contemplavam em silêncio.

Não avistei mais vida selvagem a não ser por pequenos pássaros e gafanhotos azuis. De vez em quando ouvia uns barulhos no mato. Certa hora parei para procurar por algo que parecia ter mergulhado quando me aproximei, mas nada vi. As costelas de vaca continuaram até o km 75, mais ou menos, e meu ritmo caíra. A estrada ficou um pouco ondulada e mais arenosa. No km 96 parei para pedir mais água gelada. A idéia de embrulhar as garrafas no saco de dormir era excelente -- mantinha a água fresca por horas mesmo dentro dos alforjes pretos sob o Sol quente --, mas eu estava consumindo bastante por conta do esforço. No km 115 parei num gramado para comer e tomar água. Eu estava me sentindo esgotado e, pela cor da urina, desidratado.

Vi capivaras. O dia escureceu às 18 h e no km 132 parei para colocar a lanterna. Ouvia agora os sons da noite no mato. Muitos sapos. Aves escuras brincavam de cruzar o facho de luz da lanterna. Uma lebre atravessou a estrada. Uma boiada começou a me acompanhar no escuro quando eu passava, fazendo um grande barulho de mato quebrando. O disco da Via Láctea e estrelas pintavam o céu do campo.

Faltava pouco para chegar na cidade, mas o terreno ficou mais arenoso e ondulado, como que para aumentar o desafio. Pensava que faria os últimos 15 km em uma hora, mas agora já projetava duas. A bike dançava de um lado para outro na areia fofa e quase caí diversas vezes. Carros que vinham no sentido contrário tinham uma visão inusitada do facho da lanterna. Estava cada vez mais perto: o celular recuperara o sinal e algumas mensagens atrasadas chegavam.

Não parecia que ia piorar, mas agora atravessava trechos curtos de pura areia que se alternavam com costelas de vaca. Tive que empurrar em alguns trechos, o mais longo deles, de uns 200 m, a menos de um quilômetro do destino. Via as luzes no fundo, mas elas nunca chegavam. Entrei finalmente na cidade, perto das 20 h, e entendi o que se passava. Ela própria tinha muita areia sobre as ruas. Foram mais uns 5 km até o centro.

Numa padaria parei e entrei disposto a pagar qualquer preço por uma Coca de 600 ml gelada. Eu estava totalmente exausto, e senti o corpo absorver deliciosamente o açúcar do refrigerante. Segui até encontrar um hotel barato. Tomei banho, comi num restaurante próximo e voltei para o quarto disposto a não fazer nada além de dormir.

Estatísticas:

Dia 12: 155,84 km @ 15,47 km/h, 446 m ↑

IMG_2880 - Ponte na MS-419

Ponte na BR-419

IMG_2883 - MS-419

BR-419

IMG_2886 - Gavião-caboclo na MS-419

Gavião-caboclo

IMG_2888 - Socó-boi na MS-419

Socó-boi

IMG_2890 - Maçarico-real na MS-419

Maçarico-real

IMG_2901 - Pneu furado na MS-419

IMG_2903 - Casa de pessoas gentis na MS-419

Casa de pessoas gentis na MS-419, onde ganhei almoço

IMG_2906 - Capivara na MS-419

Capivara

IMG_2910 - Fim do dia na MS-419

Fim do dia

IMG_2917 - Areião na chegada em Aquidauana

Areião na chegada em Aquidauana