terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pessoas gentis no Mato Grosso

Saí de Sonora às 6h10 porque tinha 130 km para pedalar até Rondonópolis. O clima seco causa grandes oscilações de temperatura. Cheguei a passar frio à noite acampando em Rio Verde, mas preciso aproveitar as primeiras horas da manhã e evitar o calor terrível que começa a fritar a partir das 11h. A estratégia consiste em deixar no máximo uns 40 km para depois do almoço.

Cruzei o Rio Correntes na divisa dos estados e encontrei gigantescas plantações de soja do lado mato-grossense. Era um trecho plano da BR-163, de raras sombras, onde um vento norte pôde me açoitar com toda sua força e reduzir a velocidade para 12 km/h.

No dia seguinte, um domingo, saí de Rondonópolis. Havia obras de duplicação na estrada, com uma larga pista recém-asfaltada ainda bloqueada para veículos. Dezenas de ciclistas faziam bom uso do espaço. Não encontrara tantos desde que saí de Colombo, provando que a existência de um ambiente seguro motiva os cidadãos a pedalar.

Mas foram apenas 15 km. Os 15 km seguintes não estavam asfaltados e o entulho das obras cobria o estreito acostamento, tornando o trecho muito perigoso. Tive que parar algumas vezes para esperar comboios de veículos passarem.

Em Juscimeira, ainda no km 37, resolvi almoçar, pois não esperava encontrar mais nada no caminho. No posto na entrada da cidade havia o Restaurante Fanatiko's. Um senhor me apresentou o buffet após me perguntar da bicicleta e insistiu para que eu almoçasse ali. Fiz o prato, sentei-me. Pedi apenas uma água gelada para beber, como de costume, mas ele me trouxe um suco de laranja como cortesia. Saí satisfeito e, quando cheguei no caixa, não quis me cobrar. Chamava-se Mariosan. Ofereceu-me café e conversamos bastante.

Pouco antes das 17 h cheguei em Dom Aquino, via MT-344. No Hotel Recanto dos Pássaros, um lugar bonito com árvores rotuladas de diferentes espécies, encontrei um quarto por 30 reais, mas eu pagaria apenas 15 porque as noites de domingo para segunda estavam em promoção.

Voltei à pequena cidade procurar algo para comer. Só havia bares, e decidi comprar algo para cozinhar. Encontrei a Mercearia Sassagima. Escolhi os itens das prateleiras muito sucintas enquanto conversava com a dona. Perguntou-me se eu já fora bailarino. Paguei a conta e fui saindo, mas alguém chamou a minha atenção de dentro da mercearia. Voltei-me e um senhor tomava cerveja com os amigos em uma mesa. Quis saber detalhes do meu roteiro e se apresentou: era João José, que viajava de bicicleta já em 1978. Ele abriu sua carteira e me restituiu o valor que gastara na mercearia!

Estatísticas:

Dia 23: 136,48 km @ 17,17 km/h, 1025 m ↑
Dia 24: 92,74 km @ 16,18 km/h, 1171 m ↑

Total: 2496 km

IMG_3159 - Divisa do MS com MT

Rio Correntes (divisa do MS com MT)

IMG_3166 - Sombra preciosa na BR-163

Sombra preciosa na BR-163

IMG_3186 - BR-163 em processo de duplicação

BR-163 em processo de duplicação: trecho recém-asfaltado bloqueado para veículos

IMG_3188 - Trecho perigoso na BR-163

Trecho perigoso ao lado das obras na BR-163

IMG_3198 - Eu e Mariosan, dono do Restaurante Fanatiko's em Juscimeira

Mariosan, dono do Restaurante Fanatiko's em Juscimeira e que não quis cobrar pelo meu almoço

IMG_3204 - MT-344

MT-344

IMG_3224 - Jantar em Dom Aquino

Cozinhando em Dom Aquino

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Deixando o MS, calor e banhos de rio

Após voltar de ônibus a Campo Grande fui hospedado novamente pelo Hécson, e tomei a BR-163 já na manhã seguinte. Cenário familiar, agora com plantações de milho e algodão.

Foram aproximadamente 150 km até São Gabriel D'Oeste, onde encontrei o Hotel Regional, por apenas 35 reais. Não tinha banheiro no quarto, mas o custo-benefício foi excelente, especialmente pelo café da manhã, que, pela primeira vez na viagem, teve café forte e suco de laranja de verdade, ambos sem açúcar.

Em Rio Verde do Mato Grosso fui visitar as Sete Quedas, um conjunto de pequenas cachoeiras situado a 7 km do centro da cidade. Ali há duas pousadas com camping, uma de cada lado da margem do rio. Na margem Oeste fica uma pousada que cobra 10 reais para tomar banho no rio. Fui na outra, que não cobra, a Pousada Quedas D'Água. Após um mergulho refrescante fiquei sentado num banco enquanto avaliava se compensava pagar os 25 reais que me pediam ali ou se ficava num hotel na cidade, com café da manhã, por 35. No fim das contas baixaram o preço para 15 e fiquei.

Seria um camping totalmente solitário, pois as únicas pessoas que ali estavam eram funcionários que voltariam à cidade à noite, mas era um lugar ótimo. Coloquei a barraca ao lado de um pé de mimosa sobre um gramado macio, a poucos metros das cachoeiras cujo som tomaria conta da noite.

Acordei cedo, ainda sozinho, e voltei à estrada. O trecho entre Rio Verde e Coxim é um dos mais bonitos da BR-163, mas não há nenhum estabelecimento no caminho. Muito mato e pequenas serras. No km 40, no meio de uma longa subida, vi um caminhão frigorífico parar a minha frente. Desceram rapidamente dois homens, e abriram a porta lateral. Aproximei-me, gesticulando que iria ultrapassá-los, e então um deles me entregou dois picolés. Fiquei surpreso e agradeci. Conversamos meio minuto. Mal deu tempo de tirar uma foto e já seguiram.

Em Coxim, após rodar sem sucesso algumas ruas em busca de um restaurante, parei no Posto do Edson pedir informação. Um senhor -- Edson, o dono -- de expressão séria fazia-me perguntas, sempre com grandes pausas. De onde vinha. Se torcia para o Grêmio. No fim me convidou para almoçar uma excelente comida caseira.

À tarde fui tomar banho no Córrego Fortaleza, popular entre os coxinenses, e à noite pousei no Hotel Pé de Cedro, às margens do Rio Taquari, onde o Seu Lima concedeu um desconto especial por eu ser ciclista. Muitos pescadores se reuniam ali, e no café da manhã dei muitas gargalhadas ouvindo suas histórias. Um senhor de Ribeirão Preto, vestindo uma camisa azul, era o que mais falava. No meio da conversa apontou para mim e disse: "Você não tem cara de pescador!" Contei-lhe a história da bike e, após arregalar os olhos, ele replicou: "Ninguém quis te internar?"

Hoje cheguei em Sonora, próximo à divisa com o Mato Grosso. Está muito quente. Segundo dizem o clima de Cuiabá é o mesmo dessa região. Menos mal assim, pois chegarei lá já aclimatado.

Estatísticas:

Dia 19: 151,76 km @ 19,35 km/h, 1422 m ↑
Dia 20: 82,83 km @ 20,30 km/h, 645 m ↑
Dia 21: 81,53 km @ 16,98 km/h, 806 m ↑
Dia 22: 113,00 km @ 18,21 km/h, 1224 m ↑

IMG_3054 - Plantação de milho na BR-163

Plantação de milho na BR-163

IMG_3061 - Nascer do Sol em São Gabriel D'Oeste

Nascer do Sol em São Gabriel D'Oeste

IMG_3083 - Sete Quedas de Rio Verde

Sete Quedas de Rio Verde

IMG_3093 - Camping nas Sete Quedas de Rio Verde

IMG_3097 - Sete Quedas de Rio Verde

IMG_3114 - Sorveteiros gentis na BR-163

Sorveteiros gentis na BR-163

IMG_3116 - Rio Taquari em Coxim

Rio Taquari em Coxim

IMG_3122 - Posto do Edson em Coxim

Posto do Edson em Coxim

IMG_3124 - Córrego Fortaleza em Coxim

Córrego de águas cristalinas

IMG_3129 - Hotel Pé de Cedro em Coxim

Hotel Pé de Cedro em Coxim

IMG_3130 - Rio Taquari em Coxim

Pôr-do-sol no Rio Taquari

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pantanal Sul, cheia em época de seca

Chovia na manhã do dia 13 em Aquidauana. Refiz contas de distâncias e decidi ficar mais um dia ali e cancelar a visita a Bonito. Eu teria que pedalar na chuva em estrada de terra e gastar um dia inteiro para conhecer qualquer coisa. É uma cidade turística onde não se faz nada sem se contratar um guia.

Mas no hotel em que acabei me instalando atendia um senhor antipático e avarento. O café da manhã consistia em bolo, pão fatiado e um pote separado para cada hóspede com exatamente uma fatia de queijo e uma de presunto. Pedi ao senhor para usar um tanque e um pedaço do varal nos fundos -- que não estavam sendo nem seriam usados durante todo o dia -- para lavar a minha roupa, mas ele negou com rispidez. Fui então ao mercado comprar sabão e lavei tudo no banheiro. Estendi as roupas numa corda de varal que comprara para alguma emergência, esticada dentro do quarto. À tarde fiz uma manutenção neste blog porque não conseguia mais escrever nele a partir do tablet.

No outro dia fez tempo bom, e cheguei cedo em Miranda. Numa agência de turismo me informei sobre a situação da Estrada Parque, que eu queria cruzar para chegar a Corumbá, e a resposta foi desanimadora: a cheia do Rio Paraguai, que não acontece nessa época há décadas, só permite ir até a Curva do Leque -- metade do caminho --, e também não é possível ver tantos bichos.

Passeando pela cidade cruzei com um ciclista carregado que não parei por parecer mais um muambeiro do que um cicloturista. Fui procurar hospedagem. Na primeira tinha um quarto sujo com cheiro de esgoto, e o atendente me recomendou que fosse a outro hotel porque os donos daquele não cuidavam do estabelecimento. Fiquei no Hotel Miranda. Quando sentei na recepção do hotel para escrever chegou um casal de cicloturistas, e ajudei-lhes a escolher um quarto barato, que ficava ao lado do meu. Eram Mark e Katja Lodge, e viajavam pelo mundo havia mais de um ano. Chegavam de Bonito. Saímos jantar mas não pedalaríamos juntos porque seguiam num ritmo mais lento.

Na manhã seguinte um hóspede me abordou durante o café no hotel ao ver minha sapatilha. Era mais um cicloturista, Felipe Baenninger, que executava seu Projeto Transite. Hospedou-se no quarto ao lado do de Mark e Katja. Viajava também há mais de um ano, com o objetivo de fotografar ciclistas das 27 capitais do Brasil, num trajeto de mais de 18 mil km. Contou-me que na cidade havia ainda um artesão que viajava sem dinheiro e um "italiano louco". Uma incrível coincidência.

Segui para a Estrada Parque com o objetivo de ver qualquer resquício de vida selvagem e não perder a viagem. Alguns quilômetros após o Passo do Lontra encontrei o "muambeiro" que encontrara em Miranda, consertando o bagageiro quebrado. Tratava-se do Ernani, o italiano de quem o Felipe me falara. Viajava há 20 meses só pela América do Sul e usava uma bicicleta muito simples. Não tinha o freio de trás, e pagara 5 dólares por uma das rodas e 7 pela outra. Levava uma bomba de pé para encher o pneu.

Ernani disse ter passado uma noite com o artesão, o outro cicloturista, que seria ainda mais "mulambiker". Deu-lhe um selim de presente porque o que ele usava seria muito ruim. Comecei a achar minha bicicleta antiga luxuosa perto do que via (e ouvia).

Fui até a Fazenda Santa Clara, 25 km para dentro da Estrada Parque, após indicação de que lá encontraria um camping por preço acessível. Ao chegar soube que custava 90 reais. Voltei então pela mesma estrada e fiquei no Passo do Lontra. Não iria até a Curva do Leque porque acreditava que não haveria nada novo além do que já vira naqueles primeiros quilômetros: um veado, dois ou três jacarés, e várias aves que não conhecia.

Continuei pela BR-262, uma estrada muito plana cujo acostamento variava de perfeito a inexistente, e por onde vinha desde Aquidauana. Pouco depois da ponte sobre o Rio Paraguai parei em um posto de fiscalização agropecuária. O pessoal que ali trabalhava me deu almoço e uma camiseta de um batalhão de polícia de Campo Grande.

Em Corumbá passei duas noites num couchsurfing e tomei um ônibus para Campo Grande. Embrulhei a bicicleta em sacos plásticos e alguns pedaços de papelão e ela embarcou pela Viação Andorinha apenas com um nariz torto do motorista.

Estatísticas:

Dia 14: 81,03 km @ 18,56 km/h, 678 m ↑
Dia 15: 146,79 km @ 19,82 km/h, 192 m ↑
Dia 16: 132,82 km @ 18,80 km/h, 438 m ↑

IMG_2925 - Quarto com varal em Aquidauana

Secando roupa no quarto em Aquidauana

IMG_2939 - BR-262

IMG_2957 - Miranda

IMG_2965 - Quarto do Hotel Miranda

Quartos do Hotel Miranda: da direita para a esquerda o meu, o de Mark e Katja e o de Felipe

IMG_2968 - Mark, eu e Katja, jantando em Miranda

Mark, eu e Katja Lodge, jantando em Miranda

IMG_2970 - Saída de Miranda

Saída de Miranda

IMG_2973 - Gavião-carcará

Gavião-carcará

IMG_2976 - Tuiuiu

Tuiuiu

IMG_2992 - BR-262

Longos retões na BR-262

IMG_3003 - Passo do Lontra

Rio Miranda cruzando o Passo do Lontra

IMG_3005 - Passo do Lontra

IMG_3007 - O italiano Ernani e seu bagageiro quebrado

O italiano Ernani e sua bicicleta simples com bagageiro quebrado

IMG_3009 - Eu e Ernani

IMG_3012 - Porco-queixada

Porco-queixada

IMG_3014 - Veado

Veado

IMG_3025 - Ponte sobre o Rio Paraguai

IMG_3028 - Ponte sobre o Rio Paraguai

Ponte sobre o Rio Paraguai

IMG_3034 - BR-262

IMG_3038 - Almoço no Posto de Fiscalização Agropecuário

Almoço com gente finíssima no Posto de Fiscalização Agropecuário

IMG_3042 - Rio Paraguai em Corumbá

Rio Paraguai em Corumbá

IMG_3047 - Bike embalada para viagem de Corumbá a Campo Grande

Bike embalada para viagem de Corumbá a Campo Grande

domingo, 17 de agosto de 2014

Aventura na BR-419

Quando levantei havia um furo para consertar. Era uma ferpa minúscula e, ao tentar tirá-la com a alicate, acabei enterrando-a de novo na borracha do pneu. Teria que esperar ele furar de novo.

Saí um pouco tarde para a distância a que me propus fazer, pelo menos uns 150 km de estrada de terra, após tomar um café que a Dona Solange me ofereceu.

Voltei 5 km pela mesma estrada e cheguei na bifurcação para Aquidauana, atravessando uma ponte de madeira, no início da BR-419. Eu passaria por quase 40 delas até chegar na próxima cidade. O clima estava agradável e logo vi um pouco da vida selvagem: um gavião, muitos papagaios e maçaricos. A pista era 100% plana, e fiquei na expectativa de que chegaria em Aquidauana ainda de dia. Avistei uma comitiva e me aproximei para conversar. O condutor, Sr. Mauro, afirmou que as vazantes não estavam secas entre o Corixão e o Rio Taquari e, portanto, não haveria condições de eu atravessar a Nhecolândia de bike.

O sol esquentou, mas eu seguia num bom ritmo. No km 50 começaram as costelas de vaca e, poucos quilômetros depois, parei em uma vila pedir água gelada. Após a senhora me abastecer fui comer algo na sombra e verifiquei que o pneu tinha furado novamente, como eu esperava. Comecei a desmontá-lo e o senhor da casa me ofereceu almoço. Tirei a ferpa com o instrumento certo, um cortador de unha, terminei o conserto, almocei e fui embora sem me despedir porque o senhor já roncava no sofá. Encontrei outra comitiva que mais uma vez confirmou o estado das vazantes. Esse pessoal achava estranho eu viajar de bike. Mais cedo o Sr. Mauro perguntara se eu vendia alguma coisa. O Seu João Mateus, da Colônia São Luiz, dissera que eu fazia uma penitência. Agora esses me contemplavam em silêncio.

Não avistei mais vida selvagem a não ser por pequenos pássaros e gafanhotos azuis. De vez em quando ouvia uns barulhos no mato. Certa hora parei para procurar por algo que parecia ter mergulhado quando me aproximei, mas nada vi. As costelas de vaca continuaram até o km 75, mais ou menos, e meu ritmo caíra. A estrada ficou um pouco ondulada e mais arenosa. No km 96 parei para pedir mais água gelada. A idéia de embrulhar as garrafas no saco de dormir era excelente -- mantinha a água fresca por horas mesmo dentro dos alforjes pretos sob o Sol quente --, mas eu estava consumindo bastante por conta do esforço. No km 115 parei num gramado para comer e tomar água. Eu estava me sentindo esgotado e, pela cor da urina, desidratado.

Vi capivaras. O dia escureceu às 18 h e no km 132 parei para colocar a lanterna. Ouvia agora os sons da noite no mato. Muitos sapos. Aves escuras brincavam de cruzar o facho de luz da lanterna. Uma lebre atravessou a estrada. Uma boiada começou a me acompanhar no escuro quando eu passava, fazendo um grande barulho de mato quebrando. O disco da Via Láctea e estrelas pintavam o céu do campo.

Faltava pouco para chegar na cidade, mas o terreno ficou mais arenoso e ondulado, como que para aumentar o desafio. Pensava que faria os últimos 15 km em uma hora, mas agora já projetava duas. A bike dançava de um lado para outro na areia fofa e quase caí diversas vezes. Carros que vinham no sentido contrário tinham uma visão inusitada do facho da lanterna. Estava cada vez mais perto: o celular recuperara o sinal e algumas mensagens atrasadas chegavam.

Não parecia que ia piorar, mas agora atravessava trechos curtos de pura areia que se alternavam com costelas de vaca. Tive que empurrar em alguns trechos, o mais longo deles, de uns 200 m, a menos de um quilômetro do destino. Via as luzes no fundo, mas elas nunca chegavam. Entrei finalmente na cidade, perto das 20 h, e entendi o que se passava. Ela própria tinha muita areia sobre as ruas. Foram mais uns 5 km até o centro.

Numa padaria parei e entrei disposto a pagar qualquer preço por uma Coca de 600 ml gelada. Eu estava totalmente exausto, e senti o corpo absorver deliciosamente o açúcar do refrigerante. Segui até encontrar um hotel barato. Tomei banho, comi num restaurante próximo e voltei para o quarto disposto a não fazer nada além de dormir.

Estatísticas:

Dia 12: 155,84 km @ 15,47 km/h, 446 m ↑

IMG_2880 - Ponte na MS-419

Ponte na BR-419

IMG_2883 - MS-419

BR-419

IMG_2886 - Gavião-caboclo na MS-419

Gavião-caboclo

IMG_2888 - Socó-boi na MS-419

Socó-boi

IMG_2890 - Maçarico-real na MS-419

Maçarico-real

IMG_2901 - Pneu furado na MS-419

IMG_2903 - Casa de pessoas gentis na MS-419

Casa de pessoas gentis na MS-419, onde ganhei almoço

IMG_2906 - Capivara na MS-419

Capivara

IMG_2910 - Fim do dia na MS-419

Fim do dia

IMG_2917 - Areião na chegada em Aquidauana

Areião na chegada em Aquidauana

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Travessia do Pantanal da Nhecolância e Paiaguás cancelada, mudança de roteiro

A travessia do Pantanal da Nhecolândia e Paiaguás foi cancelada. Não expliquei do que se tratava mas faço agora.

Meses atrás entrei em contato com o autor de alguns posts relatando um trajeto difícil e pouco conhecido pelas fazendas do Pantanal. Ele me motivou dizendo que não teria como errar se eu apenas seguisse a rota do GPS que ele estava me passando, e me recomendou os "descobridores" dela, o Hécson e o Jordão, de Campo Grande, para detalhes. O Hécson foi mais cauteloso em nossas conversas, mas eu seguia motivado com a ideia inicial e não cuidei de muitos detalhes até chegar em Campo Grande.

Consistia em seguir pela MS-080 até Rio Negro e depois percorrer 50 km na Estrada do Corixão. A partir dela eu atravessaria diferentes vazantes para alcançar as fazendas, de forma a desviar das estradas de areia onde não é possível fazer nada que não seja empurrar a bike. Cruzaria a ponte sobre o Rio Taquari, 90 km a Oeste de Coxim, e da mesma forma chegaria a Porto Jofre, no Sudoeste do Mato Grosso, onde começa (ou termina) a Transpantaneira.

Em Campo Grande entendi melhor a empreitada a que tinha me proposto. Primeiramente havia a questão da água, que é salobra no Pantanal, e "parece não matar a sede", segundo me disseram. Eu teria que manter vários litros de água sempre como reserva para o caso de gastar várias horas para cruzar alguns quilômetros de areião. Teria também que mantê-la fresca. Quem vai para o Pantanal de bike costuma levar uma garrafa térmica de 5 litros na garupa. Achei pouco prático e pensei em embrulhar garrafas PET no saco de dormir (isso se revelaria uma excelente ideia).

Eu também estava mal-equipado: pneus lisos de 2 polegadas, quando o certo seriam pneus com travas de no mínimo 2,2 polegadas. O Hécson levou um GPS mais confiável (Garmin) e a pessoa que me passou a rota do GPS tinha um beacon localizador, que envia mensagens via satélite com coordenadas e possui um botão para pedir socorro.

Descobri ainda algo não relatado nos posts que encontrei na Internet: o autor chegou a ficar sem água, abandonando a bike para conseguir chegar na fazenda, e pegou carona de trator nos últimos 20 km antes de Porto Jofre.

Comunicação com a família seria incerta: em fazendas com melhor estrutura há torres com antenas que são plugadas diretamente à placa do celular, mas mesmo assim nem sempre se consegue captar o sinal a dezenas de quilômetros de distância.

Tudo isso me deixou ansioso na saída de Campo Grande. Fiquei medindo distâncias entre as fazendas, e testando a paciência do Hécson com perguntas.

Mas finalmente parti, já atrasado para cumprir a distância até Rio Negro no primeiro dia. Logo no início da MS-080 parei para pedir água gelada em uma fazenda e tive uma agradável surpresa: pantaneiros almoçavam um carreteiro às 10 h da manhã e me convidaram para comer um prato e tomar refrigerante com eles. Contei-lhes do meu plano e ficaram impressionados. Lembraram da história, bem conhecida por aqui, de um canadense que, com sua noiva, a cavalo, fizeram um trajeto parecido.

Na próxima parada um senhor insistiu, preocupado, para que jamais deixasse de avisar a família. Em outra uma senhora me alertou para o perigo das onças: recentemente uma teria atacado um pantaneiro que conduzia o gado. E que é perigoso andar de bike: seu filho morrera de infarto pedalando. Concluí que não deveria anunciar meus planos a mais pessoas para não ser desmotivado.

Peguei bastante vento contra e cheguei no final da tarde, com algum custo, em Corguinho. No único hotel da cidade um rapaz que usava dois bonés, um por cima do outro, me atendeu. O quarto mais simples custava 50 reais, caríssimo pelo que oferecia: ventilador, banheiro, Internet, e um salgado do restaurante anexo e uma xícara de café com leite no café da manhã.

Comecei o dia seguinte com um arranjo diferente: a barraca foi para o lado de fora dos alforjes e, no seu lugar, coloquei as garrafas PET, embrulhadas no saco de dormir. Vesti calça e camisa de manga longa por causa do Sol mais forte a cada dia. Na estrada vi araras, papagaios, e um veado. Boiadas passavam a me acompanhar quando eu me aproximava, como se eu fosse o condutor a cavalo.

Num posto em Rio Negro abasteci as garrafas com água gelada. Almocei bem e comi sobremesa. Troquei o capacete por algo mais apropriado agora: um chapéu. Atingi a bifurcação para o Corixão, onde começou a estrada de terra. Tive problemas com o pneu logo no início, onde alguma areia se acumulava: parecia menos aderente agora do que nos testes que fizera antes de sair de Colombo.

Um motoqueiro recomendou que eu fosse para Aquidauana, ao Sul, ou Coxim, ao Norte, por estradas de terra, que são rotas bonitas. O motorista de uma caminhonete me informou sobre a Estrada Parque, entre Miranda e Corumbá, como alternativa.

Já era tarde, e decidi pousar na Colônia São Luiz, ainda a 45 km do ponto de início do desafio. Parei no primeiro lugar com gente na frente, um bar, cujo dono, Seu João Mateus, me aceitou sem hesitar. Perguntei-lhe sobre o estado das vazantes e não soube informar. Eu teria que falar com o condutor de alguma comitiva para saber. Disse que choveram 220 mm duas semanas antes e talvez ainda não estivesse seco. Ali a chuva é algo importante. Ninguém diz "choveu muito" ou "choveu pouco". Dizem "choveram X milímetros".

Logo fregueses apareceram e alguns me informaram sem muita certeza que as vazantes não estavam secas. Hesitei. Não queria pedalar mais 40 km por estrada de chão e ter que voltar. Confiei na informação -- como que torcendo para ser verdade, pois aliviaria minha ansiedade -- e, horas depois, já tinha um novo roteiro montado: iria a Corumbá, no intuito de conhecer Bonito e a Estrada Parque, tomar um ônibus para Campo Grande e, de lá, ir a Cuiabá de bike. No mapa ficaria uma rota contínua desde Curitiba, com uma perna até Corumbá.

Estatísticas:

Dia 10: 114,89 km @ 16,48 km/h, 910 m ↑
Dia 11: 94,53 km @ 15,48 km/h, 993 m ↑

IMG_2771 - Bike e eu em Campo Grande

IMG_2773 - Ciclovia em Campo Grande

Ciclovia em Campo Grande

IMG_2780 - Eu e Jordão

Eu e Jordão

IMG_2783 - Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

IMG_2784 - Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

Carreteiro com pantaneiros na saída de Campo Grande

IMG_2788 - MS-080

MS-080

IMG_2819 - Arara-canindé na MS-080

Arara-canindé

IMG_2823 - MS-080

IMG_2827 - MS-080

IMG_2834 - Chegada em Rio Negro

IMG_2838 - Última sobremesa da cidade antes de entrar no Pantanal

Última sobremesa da cidade antes de entrar no Pantanal: rapadura, rapadura com leite, rapadura com leite e coco, banana e doce de banana

IMG_2845 - Boiada seguindo o cicloturista na MS-080

Boiada seguindo o cicloturista

IMG_2853 - Ovelhas na estrada de acesso para o Corixão

Estrada de acesso para o Corixão

IMG_2855 - Rastro da dança da bike sobre a areia

Rastro da dança da bike sobre a areia

IMG_2862 - Siriema na estrada de acesso para o Corixão

Siriema

IMG_2870 - Tamanduá-bandeira rondando o acampamento

Uma inesperada visita ao sair da barraca de madrugada: um tamanduá-bandeira