terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Projeto concluído!

Em Arraias, TO, próximo à divisa com Goiás, começava a Chapada dos Veadeiros. Mais um destino com muitas atrações turísticas que merecia ser visitado com calma, mas a pressa de chegar em casa e cumprir a meta de 100 km por dia me fez evitar qualquer detour.

Na noite em que parei em Alto Paraíso de Goiás vislumbrei uma nova rota após a parada que faria em Brasília dois dias depois: em vez de seguir até Paraty, RJ, e de lá voltar para casa pela costa, eu poderia percorrer um caminho mais curto, via Uberlândia e Campinas, economizando em torno de 600 km. Na parada seguinte, em Planaltina de Goiás, tomei a decisão final de seguir pela rota mais curta.

Brasília, que eu sempre quis visitar, me recebeu com chuva. Por isso dei apenas uma breve volta pelo Eixo Monumental e passei quase toda a tarde no apartamento do couchsurfer Marco, no Setor Sudoeste. A mudança de rota me deu novo ânimo, e me propus o desafio de percorrer os últimos 1400 km em 9 dias. Além da quilometragem diária mais longa eu enfrentaria um relevo cada vez mais ondulado e as chuvas, que decidiram cair na região justamente quando eu estava chegando, após uma estiagem histórica.

Na BR-040 escapei de uma pancada forte, que começou exatamente quando cheguei no hotel em Cristalina, GO. Nos quatro dias seguintes eu pegaria chuva durante a pedalada, na forma de pancadas ao longo do dia, mas a virada no clima foi compensada com uma BR-050 em processo de privatização ou já privatizada. Para quem há mais de três meses andava pelos cantos menos desenvolvidos e mais remotos do Brasil foi como chegar na Europa. Acostamento largo, liso, sem defeitos, excelente sinalização, postos de gasolina frequentes e povoados ou cidades distantes não mais que 15 km um do outro.

Em São Paulo a BR-050 virou SP-330, ou Via Anhanguera. É considerada uma das dez melhores estradas do Brasil, mas quanto mais próximo da capital do estado mais movimentada ela ficava. Nas imediações de Hortolândia ficou perigoso pedalar. Quatro pistas em cada sentido com velocidade limite de 120 km/h, além de vias marginas com duas pistas. Um número absurdo de carros e caminhões.

Eu tinha a opção de seguir até a capital e tomar a BR-116 em direção a Curitiba, mas escolhi um percurso passando por Sorocaba, onde moram meus sogros, e pela Estrada da Ribeira (BR-476), que há tempos planejava percorrer de bicicleta.

Tomar o acesso à Rodovia Santos Dumont, no entorno de Campinas, foi outro desafio. As duas pistas da esquerda da Via Anhanguera levavam a Sorocaba; as duas da direita, que eu precisava cruzar, a São Paulo. Precisei esperar quase 10 min no acostamento até surgir uma brecha no fluxo que me permitiu correr até o meio da bifurcação.

Em Sorocaba passei duas noites e pude acumular energia para os 380 km restantes. Só mais dois dias e eu estaria em Colombo. No dia 30 de novembro, um domingo, tomei a Rodovia Raposo Tavares, sentido Itapetininga, e depois o acesso para Capão Bonito. Ali acabou a sequência de estradas pedagiadas. Começou então um trecho sinuoso e extremamente ondulado, mas a maior parte dele eu deixaria para o último dia. Dormi em Guapiara, no único hotel do centro da cidade (que surpreendentemente tinha um ótimo custo-benefício).

O derradeiro dia, 1o. de dezembro, começou as 5h30 da manhã. Acumulava 700 metros de subidas já nos primeiros 30 km, apesar de estar ainda na mesma altitude com que saíra de Guapiara. A dificuldade do terreno só era compensada pela emoção de perceber a proximidade de minha terra. Logo antes de Apiaí ouvi a primeira araponga e vi a primeira araucária em meses.

Foi uma delícia descer pela Estrada da Ribeira até Ribeira, SP, e Adrianópolis, PR, a bike deitando para um lado e depois para o outro. Mas então começou um verdadeiro perrengue. Primeiro subi dos 200 para os 1100 metros. Dali em diante, por várias vezes, a estrada descia 200 metros, atravessava um rio, e subia novamente, sempre com forte inclinação e curvas acentuadas. A única vantagem, além da beleza, era a segurança: apesar de não ter acostamento até mesmo os carros de passeio não desenvolviam mais que 60 km/h.

Era necessário parar a cada 15 km. Num dos últimos descansos, no alto da Serra de Santana, desci da bike tremendo. Estava esgotado. Tomei toda a água e comi tudo o que restou nos alforjes.

Fiz outra parada em Bocaiúva do Sul e parti para os quilômetros finais. Já perto de Colombo uma surpresa: meu pai apareceu de carro para me acompanhar. Entreguei-lhe a máquina fotográfica e o segui pelas vias da zona rural de Colombo até o centro.

Em casa, onde cheguei as 20 horas, o restante da família esperava. Que saudade de tudo e de todos!

Após assimilar o término da viagem verifiquei os dados da última pedalada: 4139 m de subida acumulada em 208 km. Como base de comparação o segundo dia mais pesado da viagem teve "apenas" 2279 m de subida acumulada.

A meta foi cumprida com alguma folga: 12668 km em 123 dias, ou 103 km por dia.

Estatísticas:

Dia 111 (Teresina de Goiás): 142,28 km @ 17,72 km/h, 1456 m ↑
Dia 112 (Alto Paraíso de Goiás): 67,79 km @ 13,91 km/h, 1274 m ↑
Dia 113 (Planaltina de Goiás): 168,29 km @ 18,85 km/h, 1716 m ↑
Dia 114 (Brasília): 76,53 km @ 18,31 km/h, 953 m ↑
Dia 115 (Cristalina): 131,68 km @ 19,88 km/h, 1279 m ↑
Dia 116 (Catalão): 183,51 km @ 21,61 km/h, 1236 m ↑
Dia 117 (Uberlândia): 112,04 km @ 17,21 km/h, 1614 m ↑
Dia 118 (Ituverava): 186,30 km @ 21,45 km/h, 2007 m ↑
Dia 119 (Porto Ferreira): 188,41 km @ 20,20 km/h, 2056 m ↑
Dia 120 (Sorocaba): 218,31 km @ 18,84 km/h, 2240 m ↑
Dia 122 (Guapiara): 169,94 km @ 18,27 km/h, 2268 m ↑
Dia 123 (Colombo): 208,17 km @ 17,37 km/h, 4139 m ↑

Total: 12668 km

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IMG_7054 - GO-118

Chapada dos Veadeiros

IMG_7060 - Paralelo 14

IMG_7066 - Altitude máxima na Chapada dos Veadeiros

Altitude máxima da viagem: 1527 metros

IMG_7091 - Tucano na Chapada dos Veadeiros

Tucano

IMG_7099 - GO-118

IMG_7102 - Divisa GO-DF

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Palácio Itamaraty

IMG_7122 - Congresso Nacional

Congresso Nacional

IMG_7125 - Divisa DF-GO

IMG_7130 - Nuvens escuras na BR-040

BR-040 próximo de Cristalina

IMG_7146 - Divisa de estados GO-MG

Divisa de estados GO/MG

IMG_7155 - Divisa de estados MG-SP

IMG_7163 - Via Anhanguera

IMG_7165 - Via Anhanguera

IMG_7173 - Via Anhanguera

Via Anhanguera

IMG_7175 - Pedágio na Via Anhanguera

Pedágio na Via Anhanguera

IMG_7177 - Via Anhanguera em Hortolândia

Via Anhanguera próximo de Hortolândia

IMG_7184 - Ciclovia em Sorocaba

Ciclovia em Sorocaba

IMG_7188 - Rod. Raposo Tavares

Rod. Raposo Tavares

IMG_7211 - SP-250

SP-250

IMG_7212 - Araucária na SP-250

Araucária na SP-250

IMG_7236 - Estrada da Ribeira

Estrada da Ribeira

IMG_7238 - Vista da Estrada da Ribeira

IMG_7241 - Restaurante na Estrada da Ribeira

Restaurante entre Adrianópolis e Tunas do Paraná

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Ponte sobre o Rio Capivari, em Colombo

IMG_7254 - Cascatinha

Ribeirão das Onças, em Colombo

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Chegada em casa, com meus pais

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Tocantins, Parte II

A segunda passagem pelo Tocantins foi bem menos interessante do ponto de vista turístico.

Passei por um trecho ruim da movimentada BR-153 entre Presidente Kennedy e Miranorte, onde o acostamento é intrafegável por ser de terra e ter buracos e detritos soltos. É o pior tipo de estrada possível, pois os motoristas veem que existe acostamento e tratam de "jogar" o ciclista para fora da estrada.

Em Palmas a Elvira veio para nosso último encontro antes de eu voltar a Curitiba, mas não aproveitamos tanto como queríamos porque fiquei doente. Cheguei ao meio-dia no hotel já com dor de garganta e indisposto, e de tarde tive diarréia e febre. De certa forma tive sorte, porque no estado em que me encontrava estar sozinho teria sido terrível. Eu mal tinha forças para levantar e tomar água.

No dia seguinte já me sentia bem melhor, e me deliciei com o café da manhã do hotel, que também tinha piscina e servia almoço de bacana. Quatro estrelas o lugar. Muito luxo para mim, mas pelo tanto de pão com margarina (ou bolacha e água) que comi na viagem eu achei que merecesse.

Por sinal, as quatro estrelas me lembraram de uma história que se deu em Açailândia, Maranhão. Entrei em um hotel, a fim de pesquisar preços. A recepção tinha apenas um balcão pequeno de madeira, e nenhum outro móvel. Uma senhora idosa estava sentada em uma cadeira de rodas. Ao lado do balcão começava um corredor escuro e apertado, cujo fundo não se via. Uma mulher de uns 40 anos veio de fora fumando. A senhora idosa implorou por uma tragada e a mulher de 40 deu-lhe o cigarro enquanto me atendia. 40 reais por um quarto com ventilador e banheiro. "Tem café da manhã?", perguntei. E ela: "Olha, nós servimos café da manhã, mas nosso café não é 5 estrelas. É apenas 3 estrelas." Eu: "E o que isso significa? Pão com margarina?" Ela respondeu: "É!"

De Palmas saí pela TO-050, uma estrada bem deserta que chega a ter 100 km sem nenhum povoado no caminho. E aquele padrão tocantinense de asfalto: uma camada fina de pedra-brita que deixa a superfície rugosa e propensa a buracos.

Estatísticas:

Dia 103 (Araguaína): 110,86 km @ 18,38 km/h, 952 m ↑
Dia 104 (Guaraí): 194,01 km @ 21,86 km/h, 1424 m ↑
Dia 105 (Miracema do Tocantins): 107,59 km @ 18,89 km/h, 833 m ↑
Dia 106 (Palmas): 86,82 km @ 19,51 km/h, 674 m ↑
Dia 108 (Porto Nacional): 70,86 km @ 20,13 km/h, 391 m ↑
Dia 109 (Natividade): 166,74 km @ 19,54 km/h, 924 m ↑
Dia 110 (Arraias): 194,27 km @ 18,18 km/h, 1594 m ↑

Total: 10815 km

IMG_6801 - Dez mil quilômetros

IMG_6811 - Chuva se aproximando em Colinas do Tocantins

Chuva se aproximando em Colinas do Tocantins

IMG_6819 - BR-153

BR-153

IMG_6820 - Plantação de abacaxi

Plantação de abacaxi em Rio dos Bois

IMG_6830 - Ferrovia Norte-Sul cruzando com TO-342

Ferrovia Norte-Sul cruzando com TO-342

IMG_6843 - Monte na Serra do Lajeado

Monte na Serra do Lajeado

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Rio Tocantins

IMG_6901 - Piscina do Hotel Girassol Plaza

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Hotel em Palmas

IMG_6989 - Chapada de Natividade

Chapada de Natividade

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IMG_7020 - Subida da TO-050 próximo de Arraias

Subida da TO-050 próximo de Arraias

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Clandestino na Chapada das Mesas

Voltei para o interior do Brasil. Isso significa menos paisagens, mais subidas, mais calor, e distâncias maiores entre cidades. Por outro lado a interação com as pessoas é maior. Sou menos turista e mais viajante. A curiosidade do povo propicia o inusitado, que alivia a monotonia geral das estradas.

De Buriticupu a Açailândia enfrentei o dia mais pesado da viagem de acordo com o altímetro, mas tive boas surpresas. Primeiro um motorista parou para me entregar uma "quentinha". Depois, ao deixar Bom Jesus das Selvas, fui perseguido brevemente por duas garotas de moto que queriam tirar uma foto comigo. Viram-me da porta de casa, acharam diferente e vieram atrás de mim. Após a foto dei risadas tentando imaginar o que elas escreveriam junto da foto que publicariam no Facebook, pois não perguntaram meu nome ou de onde era, e nem sequer para onde eu ia.

Fiz mais paradas em Imperatriz (onde eu ganharia uma segunda quentinha!) e Estreito, e ontem tomei a BR-230, a Rod. Transamazônica, para a Chapada das Mesas. A intenção inicial era apenas apreciar a visão geral que se tem da estrada, mas várias pessoas me recomendaram uma visita ao cânion e cachoeira da Pedra Caída, que ficam na margem da estrada e não me tirariam da rota. Mas chegando no portal de acesso fui informado de que deveria pagar de 45 a 60 reais, conforme os lugares que pretendia visitar. Achei muito caro para tirar foto de um passeio em que não pretendia gastar mais de uma hora e continuei.

Um quilômetro depois encontrei uma porteira aberta do mesmo lado da estrada que o portal da Pedra Caída. Pensei se tratar de uma propriedade vizinha de onde veria algo mais da Chapada do que aparecia da estrada, e, como não havia placas proibindo a entrada, decidi investigar. Mas eis que aquilo era, na verdade, a entrada dos fundos do mesmo parque. Andei 500 metros propriedade adentro e vi duas passarelas, uma das quais dava acesso ao cânion. Desci até o fundo do mesmo para registrar a belíssima paisagem, mas deixei de visitar a cachoeira porque, já lá embaixo, turistas me disseram que seria necessário entrar na água para acessá-la, e eu não carregava nada para proteger a minha pochete contendo carteira e eletrônicos.

À noite pousei em Carolina, o pólo turístico da Chapada, e hoje de manhã entrei novamente no Estado do Tocantins, cruzando de ferry-boat o rio de mesmo nome.

Estatísticas:

Dia 97 (Santa Luzia): 119,24 km @ 23,30 km/h, 691 m ↑
Dia 98 (Buriticupu): 121,94 km @ 18,82 km/h, 1664 m ↑
Dia 99 (Açailândia): 152,80 km @ 17,97 km/h, 2279 m ↑
Dia 100 (Imperatriz): 68,08 km @ 22,20 km/h, 600 m ↑
Dia 101 (Estreito): 130,50 km @ 21,12 km/h, 892 m ↑
Dia 102 (Carolina): 101,08 km @ 18,23 km/h, 1165 m ↑

Total: 9884 km

IMG_6705 - BR-222

Resumo do dia 99 (BR-222)

IMG_6720 - Quentinha de feijoada ganha de um motoboy

Quentinha de feijoada ganha de um motoboy em Imperatriz

IMG_6726 - Eu e Laertes

Eu com Laertes, tio da Mayara (de São Luís). Grande companhia por uma noite em Imperatriz: fomos num churrasco e passeamos para conhecer a cidade

IMG_6739 - BR-230

Rod. Transamazônica no Maranhão

IMG_6747 - Pedra Caída

Portal da Pedra Caída

IMG_6753 - Vista da passarela em Pedra Caída

Vista da passarela que dá acesso ao teleférico da Pedra Caída

IMG_6754 - Ponte sobre o cânion em Pedra Caída

Ponte sobre o cânion

IMG_6759 - Cânion em Pedra Caída

IMG_6761 - Cânion em Pedra Caída

IMG_6765 - Cânion em Pedra Caída

Cânion da Pedra Caída

IMG_6769 - BR-230 na Chapada das Mesas

Chapada das Mesas vista da Rod. Transamazônica